“Humanizar Piracicaba”

Conheço Barjas Negri e Gabriel Ferrato desde quando estudantes. Foram e são amigos inseparáveis. Compartilhamos, por algum tempo, lutas comuns, com ideais próximos. Um jornalista, porém, vive em suas próprias trincheiras, sendo, porém – ética e vocacionalmente – impedido de compartilhar do poder. Se políticos buscam o poder, o jornalista e o intelectual buscam uma ideologia de vida social diretamente ligada à oposição. Ou seja: diante do poder, jornalistas e intelectuais legítimos são como que os cães de guarda da sociedade. Hão que latir, advertir, alertar.

Barjas e Gabriel quiseram o poder, prepararam-se para isso, chegaram lá e, com certeza, ambicionam ainda mais. Pois – como dizia Ulisses Guimarães – “o poder é o melhor afrodisíaco”. A aprovação popular do governo de Barjas e a consagradora vitória de Gabriel Ferrato mostram que eles conquistaram a confiança da comunidade. E isso não admite discussões e, ao mesmo tempo,é altamente positivo. Mas, também, de uma responsabilidade imensa, que apenas a história e o tempo – irmãos siameses – haverão de dizer.

Nunca se negou, a Barjas Negri, a sua competência como administrador e político. Há que se questionar, no entanto, comportamentos, atitudes, visões. Daí o porquê de, desde o início, ter-me manifestado em relação aos cuidados para com o andor, pois o santo, como se sabe, é de barro, em qualquer procissão. Vem de Aristóteles a primeira e mais sábia lição do governo político: “Governar a cidade não é governar pedras, mas governar homens.” A desumanização de Piracicaba, nos últimos dez anos, foi acelerada, perceptível, palpável. E a nossa grande preocupação tem sido – e procuramos demonstrá-la o mais honesta e claramente possível – com a destruição de princípios e valores que compõem a história desta terra e de nossa gente.

Piracicaba é uma cidade singularíssima. Especialíssima. Com história própria e diferenciada. Com tradições, cultura e vocação humanista exemplares. Quando, durante a II Guerra Mundial, a tragédia abalou o mundo, soterrando valores e sepultando a ordem moral, Piracicaba também sofreu as conseqüências, entrando em crise espiritual. Foi quando um prefeito de família culta, refinada, indicado para o governo da cidade, resumiu o que seria o seu trabalho: “Temos que civilizar Piracicaba”. O nome dele: Jorge Pacheco e Chaves. E deu início a uma retomada de valores, à ressurreição de raízes.

A primeira declaração de Gabriel Ferrato, como prefeito eleito, há que ser recebida com expectativa esperançosa, desde que ele a tenha, realmente, como prioridade. Para Gabriel, o dever dele é – segundo suas próprias palavras – “humanizar Piracicaba”. Isso é alvissareiro. E, de certa forma, revelador de que estávamos caminhando por um rumo diferente da proposta aristotélica: as pedras eram mais importantes. Talvez – e tomara assim seja! – tenham sido, as pedras, uma estratégia para se chegar à humanização. Se assim tiver sido, poderão ter justificativas mais nobres.

O jornalista seria, pois, desonesto e injusto se não desse um voto de confiança a um propósito que, em resumo, é o desejo da comunidade lúcida, séria, preocupada com as nossas raízes e nosso estilo de vida: uma Piracicaba novamente humanizada. Cumprimentar Gabriel Ferrato por esse propósito e por essa meta é, também, desejar-lhe êxito. ”Noblesse oblige”.

Agora, há o que cobrar. Cães de guarda têm o dever de vigiar. Sem humanismo, não há cidadãos, nem governos.

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