Isabella e tribunal do júri virtual.

O pai e a madrasta de Isabella já estão condenados mesmo antes de qualquer decisão na esfera judicial. Os meios de comunicação brasileiros – em especial, a televisão e, nesta, principalmente a Globo – conseguiram, finalmente, criar, produzir, concretizar e consagrar uma nova modalidade de Direito e de Justiça, direito e justiça virtuais. Acostumados a enquetes, pesquisas de opinião, consultas populares e, até mesmo, a tribunais formados em seus próprios estúdios – vide programa de calouros, de debates – a televisão se deu o direito de fazer o papel de detetive, de advogado de defesa, de promotor, de juiz, usando as passivas multidões de telespectadores como cúmplices, parceiros ou – no jargão publicitário – avalistas de credibilidade.

Tornou-se um clássico como lição de “mau jornalismo” a irreparável tragédia da Escola Base, quando seus proprietários, denunciados levianamente por assédio sexual, foram julgados, punidos e linchados sem direito a qualquer defesa. O tragédia de Isabella percorre um caminho inverso, num script bem feito, mais cauteloso mas infinitamente mais espetacular, no sentido mesmo de espetáculo, de entretenimento, de articulação midiática. Começou, desta vez, por se ouvir os suspeitos, o pai e a madrasta de Isabella. E a produção foi formidável no sentido de despertar desconfiança, antipatia e aversão ao casal. No “Fantástico”, o pai e a madrasta de Isabella – contra os quais as provas são realmente evidentes – foram mais réus do que poderiam ser. Caíram na armadilha do espetáculo, seus defensores talvez acreditaram ingenuamente em excelente oportunidade de reverter tendências de opinião e o fracasso da peça redundou em pantomima: o casal se condenou a si mesmo.

Na seqüência e antes de o magistrado apreciar o pedido de hábeas corpus – e num Dia das Mães, talvez “et pour cause” – o “Fantástico” ouviu, também espetacularmente, a outra parte, a vítima, bem diferentemente do que houve com a Escola Base. E o efeito foi notável: a mãe de Isabella – essa pobre e sofredora mãe que viu a filha morta brutalmente – conquistou os corações brasileiros, passando a ser nossa protegida, de todos nós, numa solidariedade nacional que, como velho jornalista, não me lembro de ter ocorrido antes, a não ser, talvez, no já longínquo e esquecido caso do estupro de Aída Coury, no Rio de Janeiro, nos 1950.

Ora, apenas por cautela e precaução alguns jornalistas e advogados evitavam manifestar opinião a respeito dos autores do crime hediondo e bárbaro, louco e pérfido. Já havia uma convicção formada, mesmo com restrições a atitudes espetaculosas de policiais e do promotor público. O respeito às regras do Direito foi defendido por uma minoria que ainda acredita na justiça e em seus procedimentos ritualísticos. Mas havia convicções, mesmo que silenciosas. Com a entrevista de Ana Carolina ao Fantástico, a mãe de Isabella conseguiu romper os diques da racionalidade, do jurisdicismo, do pudor no ritualismo jurídico e judicial. Os sentimentos humanos são maiores do que a lei. E, pelas lágrimas doloridas e honestas de Ana Carolina, a mãe, os brasileiros já fizemos justiça mesmo antes desse julgamento. Ou melhor: já julgamos. O pai e a madrasta são culpados. E continuarão culpados até mesmo se e quando um tribunal do júri absolvê-los.

É de estarrecer, mas é novo, é um tempo de transição, são mudanças assustadoras, mas a realidade está posta: foi inaugurado o tribunal do júri virtual. O perigo é que o povo se faz apenas espectador, assistente, platéia. Pois a televisão investiga, pesquisa, advoga, acusa, julga, plenipotenciariamente. E, então, absolve ou condena. É uma “Voz Populi” virtual. E isso, mais do que perigoso, pode ser suicida.

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