Miséria não é mito.

Será lamentável – mais ainda para tempos vindouros – se a anunciada e aguardada explosão desenvolvimentista de Piracicaba, a partir do árduo pioneirismo em busca do biocombustível, for vista e analisada apenas por seus aspectos econômicos positivos. Todo empreendimento econômico tem um custo social. Que será agravado se, à visão puramente tecnológica, não se associar a preocupação com as tensões sociais. Há, na justa luta pelo desenvolvimento, bônus e ônus. E estes, os ônus, recaem sempre sobre os indefesos. Em Piracicaba, há multidões indefesas.

Ora, falar – como já insistem técnicos e especialistas – em despreocupação quando ao crescimento das áreas plantadas com cana, é mistificar a realidade ou particularizar o todo. E Piracicaba tem suficiente mais do que secular experiência canavieira, com suas grandezas e misérias, benefícios e problemas. Basta uma análise rápida dessa história, basta uma visão também rápida do passado para constatarmos as grandes lutas populares, os conflitos sociais decorrentes da expansão canavieira em outros tempos, expansão que não foi acompanhada de cautelas sociais. Se há quem se tenha esquecido da “batalha contra o restilo” – como se dizia da poluição do rio Piracicaba pela então Usina Monte Alegre, dos herdeiros de Pedro Morganti – a história continua viva para ser lembrada. A luta foi árdua e, na Câmara de Vereadores e em parte da imprensa piracicabana, ouviram-se vozes proféticas contra aquele desenvolvimento então desumano, contra os perigos da monocultura, contra a crueldade em relação aos então chamados apenas de cortadores-de-cana, precursores dos bóias-frias.

Um vereador, Mário Stolf – ainda que ligado material e ideologicamente a grupos econômicos – foi uma das vozes poderosas alertando para a necessidade de se criarem cinturões verdes, sindicalistas protestando contra subempregos, a própria Igreja preocupando-se com as levas crescentes de migrantes, o aumento da criminalidade, a favelização. Ora, como dizer que não há problemas em explosões desenvolvimentistas, como as que já se esperam ou que se anunciam? Teria, Piracicaba, suficientes redes de proteção social? E as lideranças populares, quais são, onde estão, em defesa de quem, especialmente quando se vê, na edilidade, um líder metalúrgico afastar-se das origens para se aliar às lideranças econômicas?

Perdoem-me o dever de advertir, responsabilidade de quem já viu e viveu muito. Pois não foi à toa ou por simples exercício literário que, espiritualmente, fui impulsionado a escrever o romance “Bagaços da Cana”, que tanta repercussão teve à época, demorando-se a ser editado até por questões da censura política. Existiam, sim, graves e sérios problemas exatamente nos bagaços humanos que a notável expansão sucroalcooleira de Piracicaba alcançara. À cana, devemos nossa grandeza; aos empresários da área, também. Mas não se pode isentar essa indústria de tanta miséria e tragédias humanas e ecológicas que aconteceram. Por incompetência política, pois houve homens da estatura de Mário Dedini, de Pedro Ometto e de Pedro Morganti que tiveram sensibilidade para o social e para os pequeninos. Nem todos, porém, que vieram depois, o fizeram.

Esse ufanismo inconsciente pode disfarçar realidades amargas. Ou ser apenas ufanismo para impedir vozes de advertência ou questionantes. Há riquezas à vista, sim. Mas há perigos também. Basta saber da história.

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