“Non pasarán”

A consciência diz-me ser, eu, devedor de uma explicação a meus poucos leitores, também a amigos e companheiros da já longa caminhada jornalística. “Mea culpa!” Pois, quando confirmei meu propósito de não mais me envolver com política, expressei-me de forma vulgarizada. Quero insistir e tentar explicar-me: não mais me envolverei com política partidária, com esse caos institucional, com a falsa democracia e com aventureiros que buscam cargos públicos, eleições viciadas desde as origens. Política é o que de mais nobre têm as sociedades humanas. Sua criação e origem etimológica são gregas, da grande cultura do mundo helênico. E significa, antes de mais nada, um exercício civilizatório. É o governo dos homens da “polis” grega. Todo cidadão consciente, pois, é um ser político. E, da palavra política, derivaram-se a polidez, o policiar, o polido, policiamento no sentido de estabelecer limites. Portanto, toda uma ordem moral e cultural.

Frídico, um dos mais esquecidos sábios gregos, deu a sua definição de homem, de humano. Para ele, esse ser especial se resumia a um universo: o humano é grego. Ou seja: culto, decente, digno, cultivador do belo, das artes, da filosofia, responsável pela organização da polis. E polis foi a construção de um espaço de convivência respeitosa, do culto a valores comuns – espirituais, morais, religiosos, familiares – que constituíram uma civilização. Essa política, portanto, é uma arte nobre, digna, que precisa ser cultivada e desenvolvida. Desgraçada e equivocadamente, o político, hoje, se tornou sinônimo de esperteza, de malandragem, de má fé, ainda que haja exceções. Desse universo deformado, afastei-me. Mas me liguei ainda mais ao universo político da cidadania, da cultura, das tradições valiosas que, com o risco de serem destruídas, precisam ser defendidas, fortalecidas.

O piracicabanismo é um estado de espírito e nada tem a ver com essa realidade dramática de mediocridades e de individualismos. A Província é um sonho nosso, dos que aqui estamos, e uma razão de ser de mim mesmo. Ela se abre à população como uma herança que entregamos a Piracicaba, de uma árdua e longa jornada que juntou acervos documentais, iconográficos, depoimentos orais, história, cultura, folclore, tradições. É uma causa ambiciosa, profundamente ambiciosa: queremos que A Província seja como que uma enciclopédia piracicabana, um baú onde se guardem esses tesouros de nossa história. Trata-se, pois, de uma pretensão e de um sonho políticos – no sentido grego da palavra – muito superiores à politicalha e a politicagem, que são deturpações e degenerações do origem da polis.

A situação mundial – e, portanto, brasileira e piracicabana também – é grave. Um momento dificílimo de transição. O mercado está matando o real e verdadeiro espírito da democracia, em nome da qual vem-se impondo a tirania a partir da aliança entre os poderes econômico e ideológico, com o político, travestido, nestas últimas décadas, em um serviçal de grupos. Não se trata de uma banal teoria conspiratória, mas de uma constatação que começa a varrer o mundo com explosões populares, com rebeldias, com a desordem dos que lutam por sobreviver. Vale a pena insistir: pode-se enganar alguém todo o tempo; pode-se enganar muitos muito tempo; mas não se engana a todos todo o tempo. A reação popular, em nível mundial, começou. Os Nero, os Romanov, os Luíses de França, os tiranos começam, novamente, a cair.

Há uma guerra civil tanto em nível físico como no espiritual. A Província estará incansável no propósito que me manteve vivo e com os princípios solidificados até aqui: paixão por Piracicaba. Por nossos valores, por nossa história, por nossos ancestrais, pela singularidade de uma terra especialíssima que nunca se deixou tomar pelo aventureirismo, destacando-se e impondo-se, ao contrário, pelo pioneirismo. Quando da Guerra Civil Espanhola, na década de 1930, as forças da violência tomavam os valores da Espanha, uma heróica mulher do povo ergueu-se com intensa força moral e imantou o povo à reação. Diante dos bárbaros – Dolores, que se glorificou com o título de “La Passionaria” – bradou, como baluarte da integridade moral: “No pasarán”.

Em defesa dos valores piracicabanos, quero insistir na posição política minha, pessoal, e deste jornal: os bárbaros, que atingem as nossas raízes, “Non pasarán”. Para isso, sabemos contar com o apoio do piracicabanismo legítimo e autêntico, não o de conveniências. Espero ter-me desculpado pela minha falha anterior de comunicação. E bom dia.

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