Nossos ilustres esquecidos.

Esta é uma coluna intimista, espaço de escrevinhador para discorrer sobre o cotidiano. Dizem ser crônica, ainda que ninguém tenha, até aqui, conseguido definir exatamente o que seja isso. Seja o que for, a crônica é o coloquial do escrevinhador. E este espaço, o Bom Dia, desde os tempos dor jornais impressos e letras de chumbo, já tem a idade de 43 anos. Foi em 1964, em agosto e diante de muitas amarguras já causadas pelo golpe militar, que nasceu a necessidade, a sufocante necessidade de um cantinho intimista, de confiteor, de desabafo, de coloquialidade diante dos absurdos dos tempos. Que continuam absurdos.

Pois bem. Lá se vai o tempo, lá se vão os anos, com mudanças, transformações e, de minha parte, com novas angústias. Se, antes, era a angústia diante do futuro de Piracicaba, agora é em referência ao presente, ao momento atual, pelo desfalecimento da memória de um povo, pelo tão pouco cuidado – apesar dos esforços de alguns – que se dá ao culto dessa história.

Essa doação da Família Silva Gordo ao Lar dos Velhinhos – algo assombroso, tão o valor histórico e material que aquela propriedade de Monte Alegre contém – é um dos mais poderosos testemunhos que vi, na minha mais do que cinqüentenária carreira jornalística em minha terra, do verdadeiro sentido espiritual da tradição. Ora, venho insistindo e batendo e pregando quase apenas às pombas que TRADIÇÃO não é imobilismo, mas entrega, doação, herança, transmissão. Uma geração entrega a outra seus valores e princípios não apenas para serem conservados, mas transformados conforme suas raízes, seus princípios. E isso os Silva Gordo acabam de fazer, mesmo sabendo que Piracicaba – esse que se sobressalta com sanguessugas, com máfia de casinhas, com imediatismos assustadores – pouco saiba de quem sejam ou que tivessem sido os Silva Gordo. (V.Gente Nossa.)

É isso que angustia. Não tem sido transmitida, às novas gerações de piracicabanos, a grandeza de nossa história, essa saga que nos vem do Império e que se transforma em nascedouro e em semente da República. Os Silva Gordo, Cincinatti Braga, os Moraes Barros, as famílias republicanas que se uniam às antigas famílias imperais, os Morato, os Conceição, os Rezende, antecipando e preparando o terreno para os heróicos migrantes europeus, cujo sangue se misturou ao de africanos.

A propriedade de José Adolpho da Silva Gordo, herdeiro de Adolpho Gordo, o piracicabano e senador da República, tem a história contada pelos braços e suores de Pedro Morganti. Mas, antes dele e naquelas terras, o suor do Senador Vergueiro, do Brigadeiro Luiz Antônio, do Marquês de Monte Alegre, o todo poderoso Costa Carvalho. Meu Deus, que história tem esta terra, esta nossa terra! E que pouco conhecida é das novas gerações, apesar dos esforços isolados de heróicas professoras de nossos cursos básicos, tentando contar muitas vezes sem saber por onde começar.

O Lar dos Velhinhos recebe, como que numa bandeja de ouro, um tesouro inestimável, que é o solar de Monte Alegre, onde aconteceram histórias das mais brihantes de nossa terra. Nessa jornada de entrega de bastão – que é esse o significado de tradição, a entrega, a transmissão – os Silva Gordo não poderiam ter encontrado instituição mais honrada para se fazer herdeira de uma história gloriosa. Cá, em A PROVÍNCIA, contribuímos para ela não apenas ser lembrada, mas reverenciada. Bom dia

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