O filho bastardo e máscaras caídas

Não fossem, os nossos tempos, de permissividade quase total e de laxismo moral, a chamada grande imprensa – jornalões e revistas semanais – deveria estar sentindo-se traída por Fernando Henrique Cardoso. Pois, por quase duas décadas, essa imprensa silenciou, coniventemente, a respeito da existência de um filho bastardo do homem que se tornaria presidente da República, cercado por aura de respeito e de honorabilidade. Fernando Henrique – e jornalistas mais bem informados sabiam disso – fora amante da jornalista Mirim Dutra, jornalista da TV Globo, que dele engravidara.

A revista “Caros Amigos”, com Fernando Henrique já na presidência, revelou, em extensa reportagem, manobras e ajustes feitos para poupar e preservar a imagem do príncipe tucano, preservado como vestal da moralidade pública brasileira. Divulgou detalhes da manutenção do filho e da amante na Espanha, o acerto para um amigo assumir a paternidade da criança, coisas escabrosas que jornalões e revistas não divulgaram. De minha parte, de meu cantinho de imprensa pequenino, cansei-me de fazer cobranças de tal silêncio.

Agora, ao se divulgar que Fernando Henrique decidiu, 18 anos depois, assumir à paternidade do filho bastardo, jornalistas apressam-se a relembrar fatos. Reportando-se ao Blog do Noblat, revelam que encontros de Fernando Henrique com Miriam Dutra aconteciam no apartamento do então Senador José Serra, em Brasília. E, tendo levado um soco no estômago, a tal grande imprensa, que se manteve silenciosa e conivente, busca encontrar desculpas e justificativas. Mas não há como justificar o silêncio sepulcral em torno de amores de Fernando Henrique, quanto tanto escândalo e denuncismo se fez diante de situações assemelhadas, com filhos fora do casamento de Lula, de Collor, de Pelé, de Renan Calheiros, entre outros. Em torno de Fernando Henrique, mais do que uma barreira de silêncio construiu-se uma cortina de ferro. A revelação pública desse segredo de Polichinelo tira a máscara de falsos Catões e vestais da vida brasileira.

O filho bastardo de Fernando Henrique Cardoso não pode, porém, levar o país ao grave risco de se discutir conflitantes temas da moral política e de possíveis ou reais diferenciações entre vida privada e vida pública. Serão, se acontecerem, debates estéreis e intermináveis, pois argumentos lógicos existirão nas mais diversas concepções. Ou seria até oportuno acontecesse, ainda inútil. Das entranhas da seriedade humana, no entanto, sabe-se que a vida pública, se dissociada da vida privada, será apenas máscara. Pois, se não condizerem com convicções pessoais, os atos públicos não terão sentido. Ora, ninguém pode ser decente fora de casa se não for decente dentro dela. E vice-versa.

Por outro lado, o relativismo laxista e mercantilista, prevalência do material sobre o espiritual transformaram o mundo num espaço onde vida privada e vida pública de tal modo se confundiram que não mais se consegue diferenciar uma da outra. A noção de vida privada foi diluída tanto pelas chamadas “esquerdas” – que ambicionam maior estatização da vida das pessoas – como pela direita neoliberal que tornou a vida privada simples questão de mercado. Essa direita compacta, unida e conservantista faz questão, no entanto, de tornar quase intocáveis o espaço e a diferença entre privado e público. O privado passa a ter direito ao público, mas o público não pode sequer arranhar o privado.

No entanto, o caráter das pessoas é indivisível, sendo, inexoravelmente, o mesmo, tanto na sua vida privada quanto na pública, pois caráter é como a água que embebe a esponja por inteiro. A privacidade das pessoas é inviolável, mas a vida privada delas é absorvida pela vida pública quando elas aceitam tornarem-se personagens públicas, especialmente se com mandatos populares.

Não é, em meu entender, essa a discussão que a máscara caída de Fernando Henrique suscita ou deveria suscitar. Afinal de contas, Fernando Henrique sempre se orgulhou de ser um homem racional, “um cartesiano”, como ele gostar de afirmar-se. E, em política, homens racionais seguem a filosofia de Maquiavel, do Cardeal Mazarino, de Richelieu, entre outros. Aliás, apenas para lembrar, Maquiavel havia dito ao Príncipe e Fernando Henrique sempre entendeu:

“Como é louvável um príncipe que mantém a sua palavra e vive com integridade! Assim mesmo, a experiência dos nossos tempos mostra que os príncipes, que não mantêm a sua palavra, tiveram muito sucesso em seus governos, e foram capazes, pela astúcia, de confundir as mentes das pessoas. Esses príncipes, que não honraram suas palavras, tiveram em última análise mais sucesso do que os príncipes que fizeram da lealdade o fundamento do seu poder.” “Por isso, um governante prudente não deve manter sua palavra, quando fazê-lo for contra o seu interesse, e, quando as razões que o fizeram comprometê-la não mais existirem. Se os homens fossem bons, este preceito seria errado e condenável, mas, como eles são maus e não honrarão as suas palavras com você, você também não está obrigado a manter a sua para com eles.”

Fernando Henrique construiu a própria carreira política a partir dessa noção maquiavélica de política. Tornada pública a existência do filho bastardo, a discussão não deve ser a respeito da moralidade pessoal e familiar de Fernando Henrique, um homem pragmático que vê a ética muito mais como uma questão de resultados do que de consciência. A discussão é outra e mais dramática: o que é, hoje, a imprensa brasileira, a partir dos jornalões e revistas semanais? Até que ponto, ela manipula a informação, deturpando-a, selecionando-a, tentando, com a má informação, formar uma consciência coletiva errônea? Essa imprensa não teve um mínimo de pejo ou de escrúpulo para questionar a diferença entre vida pública e vida privada, quando se tratou de Lula, de Sarney, de Collor, de Renan Callheiros. Mas se cobriu de falsos escrúpulos e pudores evitando informar que, na verdade, Fernando Henrique Cardoso é um político qualquer. A grande questão: deveria ser silêncio para todos ou exposição de todos igualmente?

O filho bastardo de Fernando Henrique – colocando o ex-presidente no mesmo nível de Renan Calheiros – teve o poder de desmascarar a grande imprensa brasileira. E, talvez, mais essa farsa política possa trazer pelo menos um benefício: o de permitir que jornalões, com as máscaras no chão, reencontrem o caminho perdido. Afinal de contas, convenhamos: ultrapassou o limite do suportável constatar que, quando se trata de Fernando Henrique e do tucanato, essa imprensa lhes confere indulgências plenárias prévias e antecipadas. E, quando se trata de Lula e petezada, estes são condenados a priori, sem culpa formada, sem direito a defesa.

É – como se dizia antes – d´escrachar!

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