O professor e o parlamentar.

Damos destaque ao comentário, que corre a internet, feito por um professor baiano, de física. (V.Navegando.) A análise do moço – ganhando, como universitário e professor, pouco mais de 600 reais – espalha-se pelo país e se torna mais um dos milhares de brados de indignação e de protesto diante do descalabro nacional, diante da pirâmide invertida de valores. E diante, especialmente, da saturação do povo brasileiro com políticos encastelados desde as câmaras municipais e prefeituras, passando por assembleias legislativas e governos estaduais, culminando no Congresso Nacional e na própria presidência da República. Quando o universo socialite lança o brado “Cansei!” – tentando, obviamente, alcançar apenas Brasília – não percebeu que deu o grito de guerra para todos os cansaços nacionais, o cansaço do povo humilde, o cansaço de professores que teimam em acreditar na educação.

Já há, visivelmente, a quase vergonha de alguém se declarar político ou de se revelar ocupante de cargos governamentais ou detentor de mandato. Em Piracicaba, quando se vêem alianças alarmantes entre vereadores, prefeito, assessores, empreiteiros – culminando nesse escândalo já anunciado do Semae – fica claro que o limite do suportável foi ultrapassado. Ora, a condenação do ex-presidente do Semae é a condenação do PSDB como um todo, dos governos tucanos anteriores e do atual, pois será facílimo a qualquer um – especialmente à imprensa local como um todo – lembrar que o ex-presidente do Semae foi um dos principais financiadores de Barjas Negri, ao lado do falecido empreiteiro Abel Pereira. E que, logo após à eleição, o sr.Edgar Camolesi declarou à reportagem do Jornal de Piracicaba que, sendo um dos financiadores do candidato eleito, se sentia com direitos a prestar serviços, como empresário, à Prefeitura. Tentou voltar ao Semae, mas seria escandaloso demais. Mas ganhou prêmio de consolação com amigos e parentes.

O poder político, quase sempre, se alia ao poder econômico. No entanto, qualquer principiante no estudo da Teoria do Poder aprende, rapidamente, que há um poder mais sério, mais duradouro, mais irradiador do que os poderes econômico e político, com o dinheiro e a força que o sustentam: é o poder ideológico. E esse poder começa a correr a internet, pois professores, educadores, intelectuais – e, por mais incrível pareça, pois anda esquecido – jornalistas enxergam a luz no final do túnel que é a luz da indignação e da decência.

Num país onde – conforme mostra o artigo do professor de física baiano – um parlamentar vale mais 344 professores não há outra saída senão inverter a pirâmide: um professor tem que passar a valer o correspondente a 344 parlamentares. Em salários. Pois, como reserva espiritual da nação, o valor do professor é intangível.

Deixe uma resposta