Perceber pela barriga.

Na festa do trabalho e do trabalhador, as duas grandes centrais sindicais brasileiras – a CUT e a Força Sindical – deram inequívocas demonstrações de como, agora mais do que antes, o sindicalismo brasileiro se vê às voltas com problemas resultantes de um complicado conúbio: sindicalistas e políticos partidários. Desde quando Getúlio Vargas caiu nos braços dos trabalhadores e com o surgimento do PTB (desde o início, a serviço do poder) a maldição da gênese trabalhista se prolongou através dos tempos. Depois de Getúlio, com Jango. Depois, com a cooptação dos militares, até o advento do sindicalismo liderado por Lula e o surgimento do PT. Mesmo assim, voltou a desandar.

A CUT e a Força Sindical, nos palanques das comemorações do 1º de maio, disputaram o troféu de maior apoio ao governo do presidente Lula. E se revelam, cada vez mais, como braços políticos dos sindicatos, atrelados a partidos. Ora, que os trabalhadores precisam de trânsito junto a governantes e empresários, não resta qualquer dúvida, pois isso faz parte do jogo democrático e, acima de tudo, da própria sobrevivência do trabalhador. Quando no entanto, surgem conúbios esquisitos ou promiscuidades condenáveis, quem perde é a sociedade como um todo, pelo esfacelamento de lideranças importantes, e a classe trabalhadora em especial, sujeita a indefinições político-partidárias e suas inevitáveis negociações. Sindicatos não devem e nem podem servir de massa de manobra dos políticos, a menos que assumam correr o risco da extinção ou de sua desmoralização, como acontece com algumas lideranças sindicais em Piracicaba, especialmente a dos metalúrgicos, na qual um patético José Luiz Ribeiro não parece não mais saber se é vereador, se é líder sindical, se segue orientações do PSDB local e estadual, se atende às diretrizes do amplo espectro partidário que apóia Lula. A claudicante caminhada do PPS ao PSDB, com longo tempo “apartidário”, traz um irreparável desgaste de imagem, ainda mais quando a personagem se torna subserviente ao governante de plantão. Basta ver o que ocorreu em São Paulo, onde e quando Paulinho (da Força e do PDT), um anteriormente confesso parceiro do PSDB, ficou em parceria com a CUT.

Quando se fala em reforma política no Brasil, fala-se no fundamental para a democracia. Pois partidos políticos estão, a cada dia que passa, mais desmoralizados por força de um fisiologismo insuportável e intragável para a digestão do povo. O mesmo começa a ocorrer com certos sindicatos, que se vão revelando oportunistas, cambiáveis, camaleônicos, despertando, na sofredora massa operária, desconfianças crescentes. São sindicatos, são partidos? E seus líderes, são líderes sindicais ou políticos profissionais?

A honrada classe metalúrgica, historicamente lutadora e heróica em sua trajetória por direitos e liberdade, se põe em alerta. Afinal de contas, pelo menos em Piracicaba, o espírito de Newton da Silva – ao lado de trabalhadores audazes de outros sindicatos – não pode deixar em paz nenhuma rendição de lideranças subservientes. Quando operários se aburguesam, deixam de ser operários. Pela barriga, percebe-se.

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