Piracicaba e “capitalismo humanizado”

Apesar dos sonhos socialistas – nas mais diversificadas formas de socialismo criadas pelo homem – foi a estruturação do capitalismo que possibilitou o espetacular desenvolvimento da humanidade nos últimos séculos. Para o bem e para o mal, o capitalismo se impôs e traçou destinos. Foi responsável pelas grandes conquistas tecnológicas, científicas, pelo desenvolvimento civilizatório. E, também, foi responsável pelas grandes injustiças e conflitos sociais, por desníveis que criaram mundos e submundos, permitindo que a opulência e a fartura convivessem com a mais negra miséria.

O neoliberalismo – consagrado pelos chamados Consenso de Washington e “pensamento único” – prometeu uma humanização do capitalismo, mas se revelou, em seus primórdios, mais selvagem e ganancioso do que o liberalismo originário. A globalização econômica desencadeou apetites inimagináveis e o mundo foi, sim, repartido entre algumas potências e conglomerados econômicos. Foi a grande farra neoliberal dos últimos 20 anos, que atropelou valores, que massacrou princípios e que, por fim, criou um lodaçal onde tudo e todos começaram a se afundar.

No passado, falou-se muito em “face humana do capitalismo”, que acabou por se confundir com tentativas equivocadas de socialismos difusos. Agora, a mesma imagem – como necessidade vital e urgente – volta à mesa dos poderosos de todo o mundo, de governantes e de mega-empresários: mais do que uma simples face humana, insiste-se na urgentíssima “humanização do capitalismo”. E isso passou a significar muito mais do que simples filantropia ou assistencialismo, mais também do que farisaicos apoios como os permitidos pela Lei Rouanet, que não traz mérito algum a ninguém, já que não passa, em análise mais aguda, de simples benefício fiscal. Agora, “humanização do capitalismo” tem o significado profundo de uma real e concreta socialização de bens morais, de dignificação da vida e da existência, de atendimento honesto, justo e solidário aos cidadãos. E mais importante: uma consciência que nasce dos próprios empresários e governantes, talvez inspirados no movimento que nos vêm do Leste, da experiência frutificante ainda que paradoxal da China, na fusão ainda incompreensível para nós entre capitalismo e comunismo.

É nesse mundo que está Piracicaba, uma cidade para a qual, hoje, se voltam os olhos nacionais e internacionais. E, quando se começa a falar em “humanização capitalista”, poucas cidades há também como Piracicaba nessa experiência de humanismo, de convivência solidária, que nos foi deixada por pilares dessa nossa construção social. De Luiz de Queiroz a Mário Dedini, com os Ometto, com os Romano, com os Morganti, com os Carmignani, com os D´Abronzo, com os Bottene, com os Silveira Mello, com os Teixeira Mendes, com capitães da indústria impossíveis de serem nominados apenas ao correr dos dedos no teclado – a antiga “currenti calamo” – Piracicaba tem uma herança de humanismo que será fundamental nestes tempos novos do etano, propícios a grandezas mas também a misérias.

Piracicaba tem uma estrutura social e empresarial de causar inveja a outros municípios, herança de nossos maiores. Temos empresários lúcidos, mega-empresários atentos. Mas, dolorosamente, nos falta, agora, aquilo que pode ser essencial: homens públicos com sensibilidade e visão de estadista, não apenas de visão gerencial ou de política apenas eleitoral; homens públicos que, realmente, estejam a serviço da população, dignificando mandatos e honrando-os, inspirados pela onda de humanismo que perpassa o mundo em todas as latitudes e longitudes. Piracicaba precisa de homens públicos do porte de um Paulo de Moraes Barros, de um Aquilino Pacheco, de um Coriolano Ferraz, citando apenas alguns de nossos construtores republicanos.

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