Ponte dos asnos

Trata-se de um termo filosófico, referindo-se a uma complicação aparente. Por extensão, passou a ser entendido como solução a alguma dificuldade diante de um ensinamento ou de uma doutrina. Pode-se dizer, hoje, diante de algo que não se entende ou que não tem sentido lógico, que se está diante da “ponte dos anos”. Ou seja: ela não significa nada.

Descobrir que uma ponte servia de ponto de ligação entre dois pontos separados por algum obstáculo – rio, riacho, depressão de terreno – foi uma das grandes conquistas da Inteligência humana. E o sentido de ponte passou a ser usado até mesmo para estabelecer ligações entre pessoas, comunidades. Exemplo: criou-se uma ponte entre João e José, eles que estavam separados por pensamentos irreconciliáveis. O Papa é visto como essa ponte entre o divino e o humano.

No entanto, há pontes que não servem para nada. Algumas ligam, por exemplo, o nada a lugar algum. Outras, fazem a travessia de um caos para outro, sendo apenas intermediárias entre dois caos. Logo, não trazem solução alguma. Por isso, pode-se chamá-las de “pontes dos anos”. De utilidade duvidosa ou enganosa e, portanto, difíceis de ser logicamente entendidas.

Se – na questão de tráfego de veículos e de pessoas – o grande problema está localizado nos dois lados da ponte – no antes e no depois dela – é óbvio que a construção dessa ponte servirá apenas de meio para pessoas se transferirem, por exemplo, de um inferno para outro. Se não se resolver aquilo que está ao lado das pontes antes de elas existirem, não se estará resolvendo nada, a não ser criando vantagens para alguns ou divertindo os que inventaram o brinquedo inútil. Ponte dos anos é, geralmente, um artifício usado por governantes mais preocupados em dar circo do que soluções, em criar imagens do que enfrentar realidades graves.

A Ponte dos Asnos – na sua significação filosófica – foi um diagrama lógico criado pelo filósofo Tartareto para auxiliar estudantes a, mais facilmente, encontrar o entendimento médio entre várias figuras do silogismo. Na verdade, foi uma tentativa de facilitar a vida dos alunos burrinhos que, por si sós, não sabiam encontrar soluções ou entender as coisas. Eram, pois, os asnos. Em política, a construção de “pontes dos anos” é iniciativa milenar. Os romanos, apeans para lembrar, criaram o “pão e o circo”, a ponte dos anos daquela época. Que funciona até hoje. Tanto as pontes, quanto os asnos.

A mobilidade urbana é, hoje, um problema mundial, a herança que recebemos de uma visão materialista de mundo, de uma filosofia de vida desumanizadora que, privilegiando a máquina, esqueceu-se do verdadeiro sujeito da história, que é o homem. Resolver problemas do tráfego de veículos, do trânsito nas cidades – esse é um desafio que exige visão humanista do momento histórico, tendo, realmente, as comunidades humanas como prioridade. O Estado não governa pedras. Governa homens. Municípios, também. Quando se dão soluções apenas paliativas, estamos diante da criação das verdadeiras Ponte de Asnos (do latim pons asinorum). É fácil identificar tanto a ponte como os asnos. A ponte é a ponte. Os asnos somos nós, povo.

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