Qual Piracicaba mesmo?

A pergunta que me faço, quando nos vemos em mais um aniversário de Piracicaba, é de perplexidade: qual Piracicaba, mesmo, é que está aniversariando? A Piracicaba que sempre teve uma identidade singularíssima, respeitada e exaltada por seus valores culturais e espirituais, ou essa Piracicaba indefinida, nivelada por baixo, pressionada por valores de mercado que atingem todas as estruturas e a própria alma histórica da urbe?

Ora, é óbvio que a mudança dos tempos altera comportamentos, hábitos, maneiras de pensar. E é óbvio que a alternância de gerações provoca mudanças. Como óbvio também é que, no desespero de ambições materialistas ilegítimas, deparemos com uma escala de valores invertida ou, então, rompida. No entanto, por mais passe o tempo e por mais surjam novas gerações, por mais o mundo se transforme tecnologicamente há, também nas cidades, algo que não pode mudar: o caráter delas. E Piracicaba tem o seu próprio caráter, forjado na história de nossos antepassados, na cultura de nossa gente, no pioneirismo da boa e transformadora educação, na saúde pública que fez, desta terra – e ainda nos primórdios do Século XX – um modelo de cidade, um padrão de município. E agora?

Fomos o Ateneo, a Atenas Paulista, a Florença Paulista e chegamos, amargamente e por um tempo de indefinições, a ser tachados como a Amsterdã Paulista, tal o descalabro de drogas entre a juventude, a impunidade e o descaso. Ora, Piracicaba vem sofrendo, há décadas, de uma ausência lastimável e acabrunhadora de lideranças políticas. Até tivemos homens bons em governos municipais, sem, no entanto, liderança aglutinadora. Tivemos gerentes, plantadores de couves que nem sequer sabem como plantar sementes de carvalho, olhando para as gerações futuras.

Neste aniversário de Piracicaba, pergunto-me a mim mesmo, angustiado e com o sentimento de desolação de quem, há mais de 50 anos, acompanha essa história como espectador e ator: qual Piracicaba? Pois esta é, hoje, uma cidade dividida entre grupos, cindida por interesses que unem forças políticas, empresariais, publicitárias, falsamente religiosas, numa cosanostra assustadora e que se pode ser percebida, quase que diariamente, em páginas sociais onde sempre lá estão os mesmos.

A verdadeira Piracicaba, que ainda existe, deveria, neste aniversário, parar algumas horas para refletir, pensar, perguntar-se: para onde estamos indo? Pois o perigo é mais do que evidente. A corrupção já nos lançou à beira do abismo. E quem está caindo nele são nossos filhos e netos.

 

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