Rebeldes com causa.

Tempos materialistas, tempos de hipocrisia alarmante. E de moralidades elásticas, adequáveis a quaisquer conveniências. Se códigos de valores foram violentados, se princípios estão soterrados, nada pode ser mais insuportável, à pequena classe dominante, do que a rebeldia e a indignação. Especialmente se elas se originam da inteligência e do idealismo, acentuados quando fomentam a juventude.

Ora, até poucos meses, havia um lamento quase geral, um desconsolo diante do que se dizia ser a apatia ou alienação da juventude. E, à classe mocidade universitária, cobravam-se mais participação, atitudes e posicionamentos. As queixas, muitas delas dramáticas, eram no sentido de que a atual geração não assumia o seu papel contestador, historicamente provocador de transformações. O lamento era da inapetência idealística, da abulia cívica. Agora, quando os jovens – com a grande causa de buscar uma universidade autêntica, autônoma, séria – se mobilizam nas principais universidades do País, há um sórdido conluio de meios de comunicação, de empresários da educação, de esquemas neoliberais para se conseguir o silêncio e o amansamento dos jovens que ocupam reitorias pouco fiéis a seus compromissos acadêmicos e universidades postas a leilão no mercado do neoliberalismo.

Os jovens estão – mesmo que não seja por meios os mais adequados – emitindo sinais claríssimos de que, finalmente, há reações contra a transformação do ensino e da educação brasileiras em empresas formadoras apenas de mão-de-obra disponível às necessidades do mercado. Universidades não existem apenas para formar profissionais à disposição de empresas e empresários, mas devem existir, acima de tudo, para formar cérebros para o País. Por isso, há um equívoco terrível quando se prega e se anuncia a “Universidade Para Todos”. Isso não é verdadeiro, pois a universidade, como sempre ocorreu e ainda ocorre nas mais sérias nações do mundo, é um centro de excelência para abrigar pessoas vocacionadas para um ensino superior, para a pesquisa, para o cultivo da ciência. O erro está nessa mediocrização, que leva universidades – como passou a ocorrer em Piracicaba – a se transformarem em fábricas de diplomas, em colegiões que despejam apenas técnicos no mercado. Oferecer diplomas é uma coisa; oferecer conhecimento, outra.

A escola e a educação, sim, devem ser, tem que ser para todos. A universidade é espaço e abrigo de vocacionados e será tolice dizer que todos são chamados para se tornarem mestres e doutores, professores e pesquisadores. A crise dos jovens é em busca de um ensino mais qualificado, mais digno e de acordo com suas aspirações universitárias. E que se anote: é um rastilho de pólvora que começa a se espalhar por todo o País, pois a juventude não mais suporta a transformação do ensino superior também em uma norma de mercado e segundo as regras mercadológicas.

Há uma causa na rebeldia da juventude. E isso é bom. Aguarde-se: Davi Barros provoca, com sua proposta de universidade de mercado, essa reação de rebeldia no corpo discente da Unimep. É questão de pouco tempo.

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