Reflexões no meu outono (II)

Quando me perguntavam de ou a respeito de Piracicaba, eu tinha muito o que contar e cantar. Nasci ouvindo maravilhas desta terra. Vivi infância e adolescência e juventude não mais apenas ouvindo, mas vendo e constatando. Piracicaba sempre foi uma cidade diferenciada, com características próprias, com uma identidade especial. Não à toa, esta cidade foi chamada de “Noiva da Colina” – num poema já centenário de Brazílio Machado – e, também, de “Pérola das Paulistas”. Mais: o “Ateneo”, a “Atenas Paulista”, a “Florença Brasileira”.

Sempre tivemos um modo de ser próprio, um estilo de vida, um caráter que definiu a cidade e sua gente. Falar de Piracicaba era falar de nossa história, de nossos artistas, dos pioneiros e do pioneirismo, de nossa vocação para criar e para resistir a simples modismos. O caráter de um homem – e de uma cidade, portanto – é o encontro, segundo Jung, entre o homem e o mundo. Ou o homem procura dominar o mundo – ou seja, as influências externas – numa posição ativa e criadora, ou, então, apenas procura defender-se, em situação passiva de quem se submete. O caráter de Piracicaba, a sua identidade, foi a de, sempre, saber fazer a síntese entre o passado e o futuro, preservando suas raízes, seus princípios, impondo-se e não se sujeitando.

Uma de minhas lamentações mais doídas, hoje, é não saber responder o que, como é Piracicaba. Vê-se, dela, apenas a epiderme, a superfície, como se não tive conteúdo ou se monturos de interesses e de materialismos houvessem-lhe soterrado a alma. Ora, não se fale em desenvolvimento, que este, para existir, tem que ser harmônico. Nem de progresso, pois este, para ser verdadeiro, tem que perseguir um objetivo ético. Piracicaba cresceu, mas sendo propositalmente inchada, enxertada, artificialmente segundo os interesses de grupos dominantes. Ao crescimento harmônico, inteligente, preferiu-se a formação de um Frankenstein. Em que ela se transformou? Onde está o seu caráter? Qual é a sua identidade?

O lamentável dessa barbárie é ter, ela, acontecido – e continuar acontecendo – com o silêncio quase absoluto dos grupos sociais, de instituições, de homens e mulheres pensantes, incluindo a imprensa. Eu, homem de imprensa por toda uma já longa vida, aceito cortar na própria carne e lamentar-se desse silêncio – e, muitas vezes, cumplicidade – de veículos de comunicação que ignoraram a tradição secular de combatividade, de espírito público, de senso crítico da antes gloriosa imprensa piracicabana. O silêncio faz estrondos que até as pedras ouvem.

Penso no Ministério Público, na Associação Comercial, na Fiesp, no Conselho Coordenador das Entidades, nos clubes de serviço, nas entidades civis e também religiosas – e me lembro de como se faziam ouvir e de como influenciavam os destinos da comunidade. Para o bem e para o melhor. Por que o distanciamento? O poder econômico – aliado ao político – teve, realmente, tanto poder assim para calar, silenciar e, até mesmo, atemorizar uma sociedade inteira?

Não sei, hoje – e me dói admiti-lo – o que cantar de minha terra, tão heróica e de história especial. Alimento a esperança de nossa identidade estar apenas encoberta por essa superfície feita de equívocos e de interesses mesquinhos. Qual o caráter, hoje, de Piracicaba? Lamento-me por admitir que ela não tem outro senão o de um lugar altamente interessante para os apetites e interesses de alguns. Nem mesmo chamá-la de a “Noiva da Colina” podemos fazê-lo. Pois ela degenerou.

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