Reflexões no meu outono (X)

Muitas mãosVejo-me diante de um formidável processo de transformação de Piracicaba que não consigo entender. Ou melhor: entendo perfeitamente bem, mas estou cansado demais para contar. Assusto-me ao perceber quão longa tem sido a caminhada e quanto passei pelo tempo. Nos 1950, quando comecei no jornalismo, os veteranos me chamavam de “menino de ouro”, ou o “Benjamin da imprensa”, tal a pouca idade com que iniciei minha vida cultural. Hoje, tornei-me o “decano da imprensa piracicabana” ainda em atividade. De soldado, passei a general, agora quase reformado.

Estou querendo dizer que vi, ao longo destes quase 60 anos de jornalismo, aquelas coisas que dizem ser do “arco da velha”. A imprensa era valente, atenta, zelosa de sua responsabilidade social. Promotores públicos pareciam verdadeiras sarnas provocando coceiras nas autoridades. A Câmara de Vereadores era um fórum de debates, de discussões, de denúncias. Clubes de serviço, participantes e ativos, promoviam, estimulavam e exigiam ações sociais e públicas em benefício da população. Entidades empresariais e sindicatos – nos intervalos de grandes discussões – exigiam serviços do poder público. Corrupção existia, sim. Mas era rara. E por tão rara ser se transformava em escândalo repulsivo e abominável, estigmatizando seus autores para sempre.

Depois do golpe militar – que se justificou alegando o combate à corrupção e à subversão – pensou-se em uma nova ordem moral, com o respeito pleno ao bem público, à “res publica”. Durou pouco. Pelo contrário, a corrupção se tornou mais sofisticada e, para massacrar as massas descontentes, privilegiaram-se acordos, acertos, entendimentos, códigos. Estabelecia-se a união, até aqui inseparável e cada vez mais sólida, entre bancos, empresários, políticos e, enfim, o público sendo dominado por parte do privado. A coisa pública – a “res publica”, insisto – se tornou como que propriedade do poder econômico. Aliás, pouco antes dos golpes militares na América do Sul, um presidente dos Estados Unidos – Dwight Eisenhower, general vencedor da II Guerra Mundial – anunciou, ao final de seu governo, uma nova e perigosa realidade: o Estado Militarista. Nele, estava iniciando-se o conúbio entre empresas e o Estado, este com o poder da força.

A globalização econômica não nasceu por acidente. Quem se der ao trabalho de ler o livro “Clube Bilderberger” – quase impossível de ser encontrado até mesmo em sebos – terá a melancólica consciência de quanto as nações, os povos, os cidadãos do mundo são manipulados e instrumentalizados. São reuniões anuais – o nome Bilderberg é de um hotel holandês, onde se deu a primeira reunião em 1954 – que discutem e traçam os destinos do mundo. O sonho de um governo único, de uma moeda única, de um poder único – ou seja, de uma tirania multinacional – é acalentado pelos poderosos e alimentado pela cumplicidade dos grandes oligopólios das comunicações em nível mundial.

Desta filosofia monopolista, nascem o “pensamento único”, o “politicamente correto”, falácias que são servidas em bandejas de ouro como se fossem verdades. A partir desses conluios, a corrupção se tornou universal, tolerável e até mesmo necessária para se atingirem objetivos de grupos. E, de cima para baixo, o “poder a qualquer preço” contamina as chamadas sociedades democráticas. Também ditas ocidentais e cristãs. A contaminação é proposital, direcionada, um instrumento de eficácia e de eficiência em favor do poder. E atinge todas as áreas, todos os níveis, como se fosse, realmente, um grande clube a impor novos valores, a destruir princípios, a anular identidades culturais.

De cima para baixo, chega às cidades, aos municípios. As coisas são sabidas e não reveladas. Afinal de contas, puxar uma só linha do novelo é começar a desfazer o novelo todo. A Máfia italiana – desde o seu início – adotou o princípio básico para manter a unidade e a cumplicidade: a “omertá”, o código de silêncio. Ninguém fala, ninguém denuncia. Pois quem falar ou denunciar, simplesmente morre. Ou desaparece.

Essa nova “omertá” também impera nos grandes conluios do mundo globalizado, onde as vantagens econômicas são o principal senão o único benefício. Que todos se calem para que a cumplicidade seja preservada. Lembro-me dos grandes escândalos e dos ruídos em Piracicaba, das denúncias, das punições, das injustiças, dos processos, das violências. Éramos uma cidade atenta, pois, havia necessidade de atenção e de vigilância.

Hoje, Piracicaba parece ser uma cidade privilegiada. Não há mais corrupção, não há obras superfaturadas, não há conluios entre empresas e políticos, não há vantagens particulares em obras públicas. Devemos ser uma cidade pacificada e exemplar. Pois o silêncio é total: de imprensa, do Legislativo com suas poucas exceções, de entidades, do Ministério Público, de instituições. Se não há do que reclamar é porque está tudo em paz. Isso é um privilégio. A menos que estejamos vivendo o código da “omertá”.

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