Reflexões no meu outono (XIII)

Futuro desertoUm de nossos maiores brasileiros, Oswaldo Aranha – que presidiu a histórica sessão da ONU na criação do Estado de Israel, chanceler do Brasil – acabou, num desabafo, expressando a frase que se tornou célebre: “O Brasil é um deserto de idéias e de homens.” Após isso, parece que a mesma avaliação se estendeu ao Senado brasileiro.

Confesso que estaria feliz se pudesse dizer ou pensar o contrário. Mas – parodiando o grande Oswaldo Aranha – sinto-me obrigado a constatar que “Piracicaba se tornou um deserto de ideias  e de homens.” E que, por homens e ideias, entendam-se visões mais amplas, universais e altivas de mundo e de vida. Seria como aquela frase de Ruy, que ando repetindo sem, ainda, me cansar: “O político planta couves; o estadista planta carvalhos.”  

Tenho vivido – com meus companheiros cá de A PROVÍNCIA – a quase insana luta para deixar, à atual e futuras gerações, o máximo possível de informações sobre a história e a memória de Piracicaba, um tesouro de conquistas e de realizações. Ao mesmo tempo, porém, vemos a verdadeira devastação que se faz a um dos grandes privilégios desta terra abençoada: a nossa natureza, a paisagem, aquilo a que historiadores e viajantes do passado chamavam de “verde sem igual”.  Vimos, a pouco e pouco, destruindo nossos tesouros, trocando-os por monturos de cimento que não têm qualquer sentido, a não ser o de beneficiar alguns grupos.

Essa devastação começou há alguns anos. E,em nome do progresso – do qual se fala muito sem se refletir sobre o que significa – destruíram-se parques, praças, maravilhosas áreas verdes. Nos 1950/60, houve, no Brasil, a chamada febre desenvolvimentista, a “interiorização do desenvolvimento”. Luciano Guidotti – o mais eficiente dos nossos prefeitos na área urbanística – acreditou nisso e passou a combater as “coisas velhas”. Samuel Neves havia iniciado a destruição do Parque do Barão de Rezende para se construir o Estádio Municipal. Era um parque fascinante. Luciano Guidotti continuou a devastação. E foi Luciano, também, que exterminou o Parque Sachs – antigo Parque da Ponte – para a construção de um hotel municipal, ora veja. E ele, ainda, derrubou o Solar do Barão de Serra Negra – a antiga prefeitura – para construir um caixote idealizado por João Chaddad. E, com ele, colocou por terra – pode-se dizer que pecaminosamente – as palmeiras imperiais do Largo de São Benedito, plantadas pelas mãos do Imperador D.Pedro II, em uma de suas visitas a Piracicaba.

Piracicaba, insisto, foi chamada de “A pérola dos paulistas”. Por nossas belezas naturais, por nossa cultura, por nosso pioneirismo. Mas, chegou, nos 1980, a ser denominada “A Amsterdã” brasileira. E, a partir de agora, certamente caminhamos para nos tornarmos a “Seul verde amarela”, quem sabe?

De minha parte – nessa minha já longa viagem ao longo de toda essa história – nunca consegui entender que a terra onde está plantada, gloriosamente, a ESALQ , se permita aceitar uma jornada para um futuro deserto. Ora, desde os 1940, tivemos – se não me falha a memória – quatro prefeitos formados pela ESALQ, quatro engenheiros agrônomos, homens, portanto, preparados para os cuidados para com a natureza. Foram eles: José Vizioli, João Herrmann Netto, ACM Thame, Humberto de Campos.E muitos secretários municipais também agrônomos.  Como, então, foi possível Piracicaba não ter um plano diretor coordenado, supervisionado, orientado pela ESALQ, em parceria com a USP – para que nos tornássemos o verdadeiro e grande jardim ao qual fomos destinados?

Luiz de Queiroz – ao criar a usina hidroelética à margem do rio, estação de tratamento de água – transformou toda aquela área num imenso jardim, importando, da Europa, preciosas mudas de árvores que se adaptaram ao nosso solo e clima. Ele foi um cultor da natureza e o seu sonho de uma escola de agricultura – hoje, a nossa admirável ESALQ – contagiou e contaminou Piracicaba, até que os especuladores imobiliários chegassem ao poder.

Estamos diante de uma devastação assustadora. Árvores são derrubadas às centenas para dar lugar a condomínios cujo mercado é duvidoso, espigões que se assemelham aos antigos blocos residenciais soviéticos. A lagoa de Santa Rosa já está comprometida. O futuro do Lago de Santa Rita é duvidoso, quando poderia ser um parque recreativo admirável. As tais pontes estaiadas são verdadeiros monumentos a faraós, matando a paisagem e despertando constrangimentos a quem, no mínimo, tem senso de estética e respeito às origens.

O que pode haver de mais irônico do que ver a terra da ESALQ caminhando para ser um futuro deserto?

1 comentário

  1. Delza Maria em 04/06/2013 às 14:50

    Enquanto isso a população da Turquia saí às ruas protestando contra ações políticas neoliberais que estão acabando com a sua qualidade de vida. Entre essas ações políticas está a derrubada terrível de árvores para dar lugar a "shoppings-centros". Ao que parece o problema da destruição da natureza pelo homem é um problema universal. Os shoppings constituem o refúgio ideal para quem desistiu de pensar ou nunca se empenhou nisso.

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