Reflexões no meu outono (XIX)

EditorEstamos todos, sim – e de forma geral – aborrecidos com os meios de comunicação. Eles chegaram ao limite, ainda que alguns finjam não perceber, ao passo que a grande maioria dos profissionais já o saiba. Na verdade, os veículos de comunicação acabaram esbarrando na terrível mas verdadeira análise de Abraham Lincoln, em sua forma mais conhecida:

É possível enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo.”

Assis Chateaubriand tentou – e até conseguiu – enganar a todos por algum tempo, por tempo demais. Ainda agora, o magnata Rudolph Murdoch – com seu império de comunicações – tenta fazê-lo, mas já amargando a falência de suas pretensões. A informação – quando desperta dúvida ou suspeita – perde a credibilidade. E desmoraliza, por conseguinte, a opinião manifestada a partir de premissas falsas. O editorialista se manifesta a partir da informação, do fato que lhe é apresentado. Se fato e informação são falsos ou manipulados, o editorialista opina erroneamente. Às vezes, por boa fé. Quase sempre, porém, por má fé ao seguir a farsa e a tragédia dos magnatas que dominam a imprensa não mais como serviço e missão, mas como poder e domínio.

A descrença e o descontentamento do leitor – sendo óbvios e evidentes – nem sempre, porém, são justos e racionais. Pois, há que se procurar  causas, motivos, razões de essa imprensa – de natureza heróica e missionária – ter-se tornado parceira e, também, cúmplice do Poder. A resposta é amarga, doída, mas real e cristalina: a imprensa – veículos médios e pequenos – tornou-se, também, vítima do poder econômico internacional, vítima disso a que se chama globalização econômica. O leitor – se ouvir a intimidade dos profissionais de imprensa nas redações, se ouvir diretores e também empresários da média e pequena imprensa – ouvirá que, também eles, se sentem indignados, como que castrados, mas impotentes e indefesos diante do massacre do poder econômico.

Veículos de comunicação são absolutamente dependentes, hoje, dos apoios publicitários, privados e públicos. E as escolhas dos agentes publicitários – tanto das empresas privadas quanto das governamentais – são feitas conforme a linha editorial dos veículos, ainda que se fale, como desculpa esfarrapada, que se analisam circulação, tiragem, influências, penetração, etc. Exige-se – e eis a amarga, dolorosa, trágica mas verdadeira realidade – atestado ideológico. Ou de submissão aos interesses da economia de mercado. Estamos, novamente,diante da milenar dependência ideológica:”Ser amigo do rei.” E mais:” para os amigos, tudo. Para os inimigos, nem a lei.”

O leitor, o ouvinte e o espectador dos meios de comunicação têm motivos para descontentamento. Mas é preciso entender o processo, a crueldade do sistema. Sejamos, pelo menos, compreensivos : da mesma forma como um empregado engole sapos para manter seu emprego e sobrevivência, os veículos médios e pequenos de comunicação também o fazem, diante da alternativa cruel: perder os anéis, ou perder os dedos.

Permito-me – aguardando compreensão pelo que possa parecer imodéstia – dizer ter-me tornado “expert” nessa questão, desde a década dos 1980. Fui honrado – certamente sem o merecer – para ser o leigo brasileiro –  indicado pela CNBB, junto ao CELAM – para estudar, refletir e buscar respostas ao que seria a Comunicação no mundo onde a internet já mostrava suas garras. E, em especial, na América Latina. O desafio imenso mas fascinante foi o de fazer um rascunho do que deveria ser uma Teologia da Comunicação. Depois de alguns anos, o trabalho foi concluído e arriscamos apresentar o livro “Hacia una Teologia de la Comunicación”

Aprendi muito. E, em meu jornal interiorano, testei a teoria. Deu certo, um sucesso espantoso do qual me afastei por motivos pessoais. Meu jornal passou a ser “A voz dos que não têm voz”. Repórteres não mais falavam, ouviam. As elites deixaram de ser importantes, pois insensíveis e tendo seus meios próprios de informação. Era a população sofrida falando, manifestando-se, reclamando, protestando – e tendo espaço. Em dois ou três meses, meu jornal triplicou a tiragem. E as assinaturas e as vendas em bancas passaram a mantê-lo, dispensando a publicidade das empresas que se amedrontaram. Foi a  maior, mais gratificante, mais realizadora de minhas aventuras jornalísticas. Mas parei por meu cansaço pessoal.

Ainda naqueles 1980 – em encontros no Chile, na Argentina, no Brasil, no Peru – a avaliação foi profética, pois hoje se confirma: em cada país, haveria dois ou três chamados grandes jornais, duas ou três agências noticiosas, submetendo todos os outros à sua fonte de informações. Numa cidade média, haveria um único jornal poderosos, mas subordinado à conjuntura do império da comunicação. No entanto, o povo teria a sua defesa, a sua resistência: seriam os jornais de bairro, as rádios e tevês comunitárias, os “provincials papers”. E, agora, irresistivelmente com as chamadas “redes sociais”.

Que se tente entender, pois, a vitimização ta,bem da imprensa média e pequena. Mas tenho esperança de que essa mesma imprensa desperte, acorde, reaja e perca o complexo e a pretensão de ser grande, para voltar a ser  humilde e, em cada cidade e região, priorizar os moradores que clamam por ajuda. Afinal de contas, ninguém mora no mundo, mas no bairro, no quarteirão, na casa. Logo, o buraco na esquina ou o cano furado na rua são mais importantes, para o cidadão, do que o conflito no Afeganistão. A notícia, no jornalismo impresso, tornou-se secundária. Ela já se faz pública por rádio, televisão, internet. Valem a análise, a investigação, a busca dos porquês. São a hora e a vez dos analistas independentes.

A imprensa, pois, é uma vítima indignada por estar tão indefesa. Mas, com coragem – e se resolver sair de sua situação de comodismo –  pode reencontrar o caminho. E ele  está nos braços do povo.

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