Reflexões no meu outono (XVII)

culpaSe houve grandes merecimentos nas marchas que mobilizaram multidões pelo país, muitas delas – em algumas ocasiões – não podem deixar de ser vistas como oportunísticas ou simples modismo de momentos. Até hoje, por exemplo, não consigo entender o significado da “Marcha das Vadias”. Quem são elas, o que pretendem, por que esse nome tão vulgar? E a marcha dos sindicalistas, o que significou, se seus líderes têm, praticamente, livre acesso a todas as áreas do governo?

Uma das mais poderosas armas da democracia está exatamente na capacidade, no direito e no poder de o povo manifestar-se livremente, desde que dentro das regras legais do jogo. A presença – que foi crescente – de arruaceiros, de bandidos, de vândalos deixou marcas lamentáveis em manifestações legítimas e sinceras do povo, que muitas delas assim o foram. As arruaças e o vandalismo, porém, deixaram margem a dúvidas e a suspeitas. Teria sido, a baderna, algo gratuito ou foi provocada ao melhor estilo das infiltrações políticas?  E por que o chamado povão – desdentado, marginalizado, humilde – não apareceu nas câmeras das emissoras de televisão? São perguntas que ainda esperam por respostas.

O fato é que todas as manifestações se voltaram contra algo ou alguém, contra situações, contra governos e governantes, contra instituições, “contra tudo”, no protesto genérico contra também a corrupção, que é endêmica no país. E, por endêmica, entenda-se que ela chegou também ao povo. O que se viu e se vê – tirante a teatralização ou intenções políticas deliberadas – foi a transferência de culpas e a busca de culpados. Multidões em protesto declararam-se, assim, inocentes e sem qualquer responsabilidade diante daquilo contra o que protestam. Mas isso não é verdade e a premissa é falsa. E, por ser falsa, essa premissa inevitavelmente levará a conclusões erradas.

Afinal de contas, quem é o sujeito da democracia senão o povo? Ou a expressão de Lincoln é verdadeira ou perdeu a importância: “governo do povo, pelo povo, para o povo.” Governantes e congressistas nada mais são, em regimes verdadeiramente democráticos, do que os escolhidos pelo povo para representá-lo. Se o povo errar, por ter sido enganado, numa primeira vez, terá oportunidade de consertar na próxima eleição. Se errar sempre, algo fundamentalmente errado acontece nas entranhas da democracia. Ou o povo – como já o disse Pelé – não sabe votar ou,então, vota por paixão, por companheirismo, por interesse próprio, por servilismo, sem assumir o seu insubstituível poder e direito de escolha livre, honesta e consciente.

Não adianta mais jogar a sujeira para debaixo do tapete. Os governos são o retrato da média do povo que os elegeu. E, geralmente, são levados ao poder muito menos pela consciência popular e muito mais pela sedução aos mais frágeis. Políticos, hoje, são como mercadorias de supermercado, produzidas por embalagens vistosas conforme a inventividade do marketing. Ou como diria o povo: “Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.” Vestem-se com embalagens que ocultam o conteúdo.

Na realidade, eu não saberia dizer se há, no Brasil, uma maioria ou uma minoria de bons que se mantém silenciosa, acovardada, omissa. Mas há. E, espalhada e difusa, forma multidões, número suficiente para dar um balizamento à desordem eleitoral. A célebre reflexão de Martin Luther King deveria estar fixada na mente e no coração dessa multidão quase anônima, mas poderosa em sua omissão e, também, na sua capacidade de agir. Disse, o grande líder dos direitos humanos:

O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.

O grito, pois, pode não estar nas ruas e nem vir delas. O verdadeiro grito – que gerará transformações reais, que atemorizará a covardia congênita de políticos desonestos – há que vir de dentro das casas, dos lares, onde o silêncio dos bons parece sepulcral. Se há culpados, estes não são os políticos bandalhos, que só se prestam a isso como que por vocação. A culpa é dos bons, do silêncio dos bons, do cansaço dos bons, do desânimo dos bons.  Uma reação enérgica, lúcida, organizada deles valerá – não tenham dúvida – mais do que mil passeatas. Basta tentar.

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