Reflexões no meu outono (XXIII)

Médicos cubanosParece-me altamente reveladora essa discussão – ainda que hipócrita – em torno da contratação de médicos estrangeiros pelo Brasil. Seria apenas uma discussão política ou classista? Seriam sérias preocupações com a saúde do povo brasileiro, ou, apenas, outra disputa de caráter apenas corporativo e, portanto, egoísta?

O Brasil é um recém nascido para a democracia. Quase um bebê que poderá ver um mundo infantil destruído ou, então, amadurecido a passo e passo. Até aqui – após uma luta insana contra ditadura e regime militares – não construímos uma verdadeira democracia. E nem uma verdadeira nação. Somos, ainda, um país em busca de seu caminho. E um povo fragmentado cujo principal vínculo unitário continua sendo, ainda, o futebol e o carnaval. Pensar o contrário é, em meu entender, desconhecer a realidade brasileira. Ou olhá-la apenas pela óptica de São Paulo. E esse será um terrível engano, pois São Paulo, na realidade, é um país dentro de outro país.

Nos 1980 – à procura de mim mesmo e de meu país, após vender O DIÁRIO – vivi cinco anos percorrendo o Brasil. Não fui apenas às capitais nem fiquei no maravilhoso litoral. Fui ver o Brasil então mais verdadeiro, o da seca, da fome, da ignorância, das doenças, localizado, em especial, no Norte e Nordeste. Tive vergonha de mim, do meu desconhecimento da realidade brasileira. E constatei o nosso terrível engano: acreditar num Brasil pelos olhos deste São Paulo pujante é ignorância ou má fé. Naquelas regiões, o brasileiro é mesmo – e antes de tudo – um forte, como constatara Euclydes da Cunha.

Em meu entender, trata-se de uma falácia vergonhosa a alegação de que não adianta levar médicos a regiões onde não há estrutura de atendimento. E onde há, por que tantos absurdos, descasos, ineficiências? Consultemos, apenas como exemplo, os piracicabanos mais humildes e lhes perguntemos como está a saúde pública em nossa terra, que tem tantos recursos e que foi administrada por um homem que foi Ministro da Saúde. A resposta será dolorosa e, talvez, alguém pergunte se os gastos com pontes ostentatórias não poderiam ser investidos no SUS. O problema é de estrutura, sim. Mas de estrutura de ordem política, moral e social. Políticos estão tratando este país como “cosanostra”. E o povo começa a agitar-se nas ruas.

A questão não é apenas de médicos, mas de uma ordem institucional, da ausência de nação, ocupada apenas pela noção de país, um território habitado por multidões. Nação é concebida como grupos humanos unidos por laços naturais e eternos, “ab immemorabili”, de tempos imemoriais. Ela antecede o Estado. O Brasil criou um Estado antes de formar uma Nação. E se deu a pretensão de inventar a democracia, tomada de empréstimo a outros. Ora, instituições apenas jurídicas não criam identidades, pois são normativas e nem sempre refletem a consciência de um povo, quando este é mal representado politicamente.

Vem, então, a pergunta: por que não importar médicos se os nossos não ocupam os espaços que mais necessitam deles? Dizer que falta estrutura é falácia. Pois,  mesmo  em São Paulo,  há deficiências graves  até onde há estruturas, com  cidades e municípios vivendo na exclusão. O que dizer, então, dos grotões brasileiros, de nossos cafundós? São imensos espaços abandonados e entregues a verdadeiros heróis e heroínas, parteiras, mães de santo, práticos em farmácia, curandeiros, conhecedores de ervas. Um médico, apenas um médico – mesmo que mal formado e sem residência – pode salvar multidões de pessoas apenas com aconselhamentos preventivos e atendimentos clínicos. Ou ninguém mais se lembra de que, há 50 anos, era assim até aqui mesmo em Piracicaba?

Nossos médicos foram heróis. Piracicaba tinha apenas um Centro de Saúde e a Santa Casa. Nem Pronto Socorro. Não havia planos de saúde particulares e nem outro atendimento. Médicos eram verdadeiros sacerdotes e permito-me – correndo o risco consciente de me esquecer de muitos – citar homens como Dr.Lula, Dr. Cera, D.Samuel e Dr.Alfredinho Castro Neves, Dr.Coriolano, Dr.Corrêa. Às portas de seus consultórios, plantavam-se multidões. E eles iam às casas dos enfermos e os atendiam com toda a precariedade da época.

Vi o dr.Antônio Cera Sobrinho, o Doutor Cera, dar a camisa do corpo – a última que ele tinha – a um pobre doente que, de tão miserável, não tinha sequer o que vestir. E vi-o, também, retornar à sua casa, numa madrugada, todo molhado, pois tivera que atravessar a nado um riacho para assistir o parto de uma mulher pobrezinha. E ele se dizia ateu!

Essa questão dos médicos está, penso eu, mal colocada e mal explicada. A essência e o fundamento são outros. Há uma falha de natureza genética e isso alcança profissionais de todas as áreas que estudaram e se formam em escolas e faculdades do Estado. Ora, se o Estado – que é a nação juridicamente constituída, mesmo num arremedo de nação – mantém os estudos de quem será um profissional trata-se, na verdade, de o povo estar pagando pela educação de sua gente. O lógico –  absolutamente lógico em meu entender – seria o profissional devolver parte desses custos em atendimento à população. Na Holanda – por volta dos 1960 – um profissional formado em escolas oficiais devolvia dois anos em serviços ao povo, obedecendo a escalas do governo que também os remunerava.

Não é justo  um profissional – seja médico, dentista, advogado, engenheiro, qualquer outra atividade –  formado com o dinheiro do povo, devolver algo em troca?

2 comentários

  1. Delza Maria Chamma em 02/09/2013 às 17:09

    Pena serem poucos os que refletem sobre isso e percebem que a mesquinhez e o corporativismo estão impedindo as entidades representativas dos médicos saírem desse terreno rasteiro e pequeno de seus interesses de status e de conforto. Bela reflexão, Cecílio! Tomara seja lida e acolhida por todos os que ainda se deixam conduzir pelos falsos argumentos utilizados para combater o programa "Mais Médicos".

    • Adriana Sachs Cera em 04/07/2014 às 02:27

      Caro Cecílio Elias, compactuo totalmente com sua opinião e acredito realmente que o programa “mais médicos” é uma maneira eficiente de levar atendimento em lugares onde nossos médico não se habilitam a ir ,apesar de deverem isso à população que custeou os seus estudos.E acredito piamente que essa seria a opinião do meu avô, o Dr Cera

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