Relações íntimas e perigosas.

Na vida pública, as relações são sempre perigosas. Por isso, quando instituições civis e organismos políticos se aproximam com desejada e declarada intimidade, o perigo aumenta. A democracia é o regime de decisões da maioria, mas com respeito às minorias. Ora, quando instituições se unem com intimidade inadequada, é o próprio espírito democrático que se põe em xeque. Pois, em política, há perguntas com respostas definidoras do palco dos entendimentos: “quem ganha o quê, quando, onde e como?” Em política, quando um grupo vence, é em oposição ao perdedor, na reconhecida relação amigo/inimigo. A harmonia democrática é um ideal ainda não alcançado. Vai daí a razão de políticos e entidades civis cautelosas saberem, com clareza, quais os limites de suas relações, os limites de seus envolvimentos e interesses, para não haver conflitos, permissividade, promiscuidade e, especialmente, para não haver prejuízo aos menos protegidos.

Causou espécie, pelo menos aos que se preocupam com os limites desses relacionamentos, a notícia de que a ACIPI – gloriosa instituição já mais que septuagenária – a partir de um fórum realizado em seu próprio auditório, passará a “nortear ações da prefeitura no governo Barjas Negri(PSDB)”, como, literalmente, divulgou o Jornal de Piracicaba. E os partidos políticos e os sindicatos de trabalhadores e a população? Algo está ou profundamente equivocado nessa informação ou, então, há algo alarmantemente perigoso nesse entendimento que saberia a conluio. Pois não é função, dever ou responsabilidade de qualquer associação comercial, em Piracicaba ou em qualquer cidade de país democrático, “nortear” ações de governo, pois passaria a ser o próprio governo. E, se uma Associação Comercial é que governa uma cidade, então a deformação democrática está posta e terá que ser desfeita, já que o conflito de interesses é absoluto: se o comércio governa, como ficam os comerciários, o povo, a população em geral? Os planos de educação, de saúde, de segurança, serão feitos em função dos associados e da diretoria de uma Associação Comercial ou de todo um povo? Se é a Associação Comercial que “norteia”, para que um prefeito? E por que o prefeito se deixaria “nortear” por um grupo específico de interesses?

Essa intimidade da ACIPI com o Prefeito Barjas Negri é preocupante, especialmente porque o atual presidente da entidade, José Antônio Godoy – enfatize-se: um homem decente, digno e profissional responsável – tem vínculos estreitos com o atual prefeito e com o partido que o elegeu, o PSDB, do qual Godoy é antigo e atuante membro, correligionário fiel. Quando as amizades pessoais são íntimas, há necessidade de ainda mais cautela para não se confundirem afeições e cargos, ideologias e serviços públicos. A ACIPI, se for “nortear” Barjas Negri, estará já comprometida também com os fracassos e com os problemas da administração, especialmente esses que estão envolvendo o prefeito com empresas denunciadas por corrupção em nível federal, com suspeições em serviços também municipais.

A ACIPI, como as entidades civis, têm o dever e a responsabilidade de colaborar com o poder público, até mesmo de assessorar quando requisitadas. Assim tem sido a história da ACIPI em Piracicaba – com curtos lapsos de autonomia – desde a sua fundação, em 1933. A partir da II Guerra Mundial, quem acompanhou a história da ACIPI sabe de sua influência em Piracicaba, de seus serviços, de sua autonomia em relação ao Poder Público. Basta lembrar alguns dos grandes nomes que a presidiram, ainda que corramos o risco de, involuntariamente, esquecer de um que outro. Mas é memorável a atuação de homens como Lélio Ferrari, Fued Helou Kraide, Cássio Paschoal Padovani, Salim Phelippe Maluf, Telmo Otero, Paulo Chécoli. Felizmente ainda vivo e ativo, Paulo Chécoli deu esse testemunho de independência e de autonomia na ACIPI, sabendo como se relacionar com o Poder Público não para “nortear”, mas para colaborar em benefício da população.

Relações íntimas são perigosas. Como diz o povo, quanto à intimidade entre homem e mulher: “pode acabar em filho.”

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