Tempo do “tempo sagrado”.

Há, penso eu, algo no ar que tem dimensão universal. É como se, mais do que um mito, o “eterno retorno” fosse realidade inescapável do ser humano. Pois, por mais que tentemos criar estilos de vida feitos de pragmatismos e de visões individualistas, não passamos, na realidade, de membros de uma mesma tribo, a tribo humana. E o que, hoje, parece ser a verdade final e absoluta, acabará, amanhã, revelando-se de uma quase cômica repetição do que já aconteceu. Ora são novos vinhos em velhos barris, ora vinho velho em barris novos.

É universal, de todos os povos, essa repetição por assim dizer cosmogônica de um “tempo que se acaba, um outro tempo que surge”. E fim de ano tem esse significado, como se tudo o que existisse na natureza, tudo o que existe na imaginação humana, nas filosofias, liturgias nos preparasse, o ano todo, para o fim de algo e o começo de outro, de algo que se foi consumindo, de um novo que desponta. Morrem-se decepções e surgem ou ressurgem esperanças.

Ora, quando chegamos à semana do Natal estamos, na realidade, até inconscientemente, vivendo o tempo do “tempo sagrado”. Pois, na vida humana, há o tempo e também o lugar sagrados. O lar, a família, a cidade, o espaço de estar consigo mesmo e com os seus – estes são lugares e espaços sagrados. E, quando neles se está ou deles se têm consciência, vive-se o tempo sagrado.

Vejam bem: as festas que celebramos agora, o Natal e o Ano Novo, elas acontecem num tempo sagrado exatamente porque, na verdade, ocorrem na eternidade. Elas são de ontem, são de agora, serão de amanhã. O dia a dia, a labuta do cotidiano, a luta pela vida, esses são tempos profanos, como os tempos do plantio, do amanho da terra, do trabalho. Quando paramos para admitir a rendição ao “tempo sagrado” estamos, na realidade, dizendo que o tempo profano passou e que nada mais fazemos do que regenera-lo, sacralizando-o novamente, restaurando-o, começando tudo de novo. Não refazemos o ontem e nem antecipamos o amanhã. Apenas nos damos conta de que o tempo sagrado é a própria eternidade. E de que somos parte dela.

No Natal, dizemos de renascimento. E é. Como fizeram nossos ancestrais das cavernas, estamos dando adeus ao tempo velho, preparando o tempo novo. Em resumo: abolimos e suprimimos o que não nos interessou. E aguardamos o belo e o bom. Que faz parte da eternidade de cada um de nós. Este, pois, é o tempo do “tempo sagrado”. E é quando acontece, ao mesmo tempo, a purgação e a recriação. Basta-nos um mínimo de sabedoria para entender.

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