Vá trabalhar, vagabundo.

Multidões de pessoas há que vivem de crer em religiões, em mundos futuros, em promessas de outras e novas vidas. E que se esquecem do agora, do mundo atual, da carne e do corpo, da construção de uma sociedade e de uma outra humanidade mais decentes. Religiões podem prometer mundos futuros, céus e infernos, até mesmo purgatórios. No entanto, eles deveriam, antes de mais nada, servir-nos de metáforas, de referenciais mitológicos e de lições de vida.

A cultura ocidental e a civilização dos povos ditos originários da raiz européia falam-nos de leis, de direitos, de regras morais e de ordens éticas. São, no entanto, adequações. A observação marxista – ainda que os filósofos do mercado insistam em desqualificar e desclassificar toda e qualquer ideia ou pensamento da esquerda – é fundamental: “A cultura dominante é a cultura da classe dominante.” Em resumo: a História é escrita pelos vencedores. Quando for revista pelos vencidos – como está ocorrendo no Brasil de Lula – a óptica é diferente.

Ora, Brasil, ainda outra vez, está traumatizado por violências, por barbáries, por escândalos. A morte do menino João Hélio atingiu a alma da Nação. Mas é, apenas, um outro punhal, um outro tiro. Quando a indignação é coletiva, os ocupantes do Poder estremecem, sejam, eles, dos poderes ditos democráticos, constituídos – Legislativo, Judiciário, Executivo – como os da própria Teoria do Poder, de que resulta tudo: o poder ideológico, o econômico, o político. Quando as turbas – entenda-se, por elas, o povo indignado – reagem e se revoltam, o Poder abala-se. Aconteceu na Revolução Francesa, na dos Estados Unidos, na Rússia Branca. E, para quem não quer enxergar, é bom lembrar esteja acontecendo na Bolívia, Venezuela, Equador, Peru. É chato pensar, sei disso. Mas está acontecendo.

Somos, então, uma nação e um país democráticos, de raízes cristãs e ocidentais? Se assim somos, por quê tanto discutir o que se fazer com bandidos, com seqüestradores, estupradores, matadores de crianças, traficantes, políticos corruptos? Se o cristianismo não for religião brasileira, vivemos, pelo menos, sob a influência e o referencial de toda uma mitologia cristã. E, a partir dela, criamos cultura, legislação, direito, senso e noção de justiça. Acadêmicos, iluministas e iluminados, nada têm a ver com isso. A razão, quase sempre, atrapalha o entendimento das lições da história. E, em especial, a percepção da mitologia.

Ora, discute-se, outra vez, o que fazer com os bandidos que mataram o menino João Hélio, como os que estupraram sei lá quantos, os que violaram e violentaram famílias e sociedades. A resposta, se for para entender a mitologia monoteísta – que acolhe o judaísmo, o cristianismo, o islamismo – está lá, no “Livro”, basta ver o Gênesis. Pois o primeiro delinquente,  o primeiro infrator, o primeiro criminoso foi Adão. E Deus – do qual dizemos ser discípulos ou fiéis – não convocou o Congresso de Collor, de Palocci, de Genoíno, de Paulo Maluf para discutir se Adão tinha ou não idade para ser preso ou confinado, se cadeia era ou não questão de direitos humanos ou o diabo que o valha. Deus apenas determinou: “Adão, delinquente. A partir de agora, você irá ganhar o pão com o suor de seu rosto. Vá trabalhar, vagabundo.”

O trabalho, antes de honrar o homem, é uma punição. Bandido tem medo, tem pavor do trabalho, o Deus da Criação sabia disso, quando puniu Adão. Portanto, é essa a lição da mitologia para os bandidos que assaltam e que apavoram o Brasil, cada cidade, de vagabundos nas esquinas, a vagabundos na política: trabalhar. A pena para os matadores do menino João Hélio – como para todos os criminosos descendentes de Adão – tem que ser a do trabalho forçado. Imagine-se um político, um homem público, um traficante, um estuprador, um delinquente qualquer pagando sua pena como Adão a pagou: limpando esgotos das cidades, limpando privadas, varrendo ruas e sarjetas, tapando buracos.

Ora, vão às favas os iluministas e iluminados de religiões, de academias, de filosofias masturbantes. Lugar de bandido não é mais na cadeia, onde há cama, mesa, visita íntima, escritórios de criminalidade. Lugar de bandido é no trabalho e no serviço de que todos fugimos: limpar esgotos, privadas, cuidar das cloacas da humanidade.

Só para refletir: não seria alentador, fortificante, despertador de esperanças e animador de realizações, se o povo visse, por exemplo, Fernando Collor limpando bueiro do quarteirão?

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