E, de repente, silêncio sobre Cuba… (2)

adbusters_occupy-wall-street-290x290No seu histórico “Manifesto Comunista”, o velho Marx, em parceria com Engels, fez uma análise que permanece irretocável:

“Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas.”

O “Manifesto” foi publicado, pela primeira vez, em 1848. Há, portanto, quase 170 anos. E continua válido para este ainda confuso século XXI. Pois o que era sólido está, sim, desmanchando-se no ar. O sagrado foi, também, profanado. E não nos resta nada mais além de cada um encarar, com serenidade, a própria posição social e as relações recíprocas.

Apenas os rancores, medos e idiossincrasias impediram admitir-se a genialidade de Marx, hoje considerado um dos maiores economistas e filósofos de todos os tempos. O que fizeram com seu pensamento e sua obra é outra problema. O fato é que Marx soube analisar a Primeira Revolução Industrial que transformou o mundo. E deu pistas para a Segunda, que viria como consequência dela. Em cada época “tudo que era sólido se desmanchou no ar, tudo o que era sagrado foi profanado.” E, agora, em nossa época – na ainda atordoante Terceira Revolução Industrial – eis que estamos, ainda outra vez, convidados ” a encarar, com serenidade, a própria posição social e as relações recíprocas.”

A Era Digital – com suas maravilhas espantosas – já transformou o mundo. E, obviamente, isso – além de provocar mudanças radicais – nos obriga, também, a rever conceitos, valores, certezas tidas como absolutas. O grande equívoco, no entanto, estará se – em mais essa oportunidade de desenvolvimento da humanidade – matarmos o passado naquilo que ele tem de grandioso e de referencial. Não deveríamos nos esquecer de que o Renascimento, ao romper com valores da Idade Média, foi buscar a sua solidez e inspiração na Antiguidade. Assim, a Era Digital poderá ser catastrófica se não se der conta de humanizar-se profundamente.

Chamada de Era da Comunicação, estamos, no entanto, num caótico período de intoxicação de informações nem sempre verdadeiras ou honestas. A internet – uma das criações mais fantásticas da ciência humana – vive, ainda, a sua infância, o que lhe dá, por conseguinte, senso de responsabilidade também infantil. O quase anonimato que a internet propicia instiga sentimentos covardes de ódios, de mentiras, de difamações, de distorções históricas, de inverdades. Na internet, convivem preciosidades riquíssimas e lixos insuportáveis.

Ora, nem toda informação é conhecimento. E a chamada “cultura de twitter” – aquela que se resume a 140 caracteres – nada mais é do que um superficial conhecimento de Wikipedia. Nossa juventude pode perder-se nesse caos do qual nascem, quase sempre, equívocos e má informação. Surgem falsos intelectuais que se tornam como que gurus destruidores de reputações, de distorções históricas, de meias verdades que são mais perigosas do que mentiras conscientemente propagadas.

O que se fez – nos últimos tempos – em relação a Cuba passa, agora, a ser vergonhoso. A verdadeira história de Cuba nunca foi contada, pois desmentiria os seus narradores. Os rebeldes de Sierra Maestra eram idealistas que lutaram para derrubar – e o conseguiram – um dos mais corruptos e cruéis regimes da América Latina, o de Fulgência Batista. Cuba era o bordel dos Estados Unidos, paraíso da máfia e de grandes empresas vorazes, como a United Fruit Company.

Mas essa é uma longa história para uma simples reflexão. Quem substituir a Wikipedia por livros históricos respeitáveis saberá como se deu tal processo ao longo destes 60 anos. Houve ditadura? Sim. Houve tortura? Sim. Houve supressão de liberdades individuais? Sim. Mas isso aconteceu também no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Chile. E ainda acontece na China, na Arábia Saudita, em países asiáticos – sem que nenhum blogueiro reclame ou proteste.

Esta reflexão é simples, quase banal. O Papa Francisco recebeu Raul Castro; o presidente Hollande da França, foi a Cuba para reatar relações; Barack Obama – contrariando fascistas de seu país – revisa uma discriminação que martirizou todo um povo. Ou seja: Cuba, agora, está novamente conosco! E os que gritavam, histericamente, “Vão para Cuba, vão para Cuba! – por que silenciam? Suspeito que estejam preparando seus passaportes para viajar a Havana, fumar charutos e bebericar o rum cubanos. “Tudo que é sólido se dissolve no ar…” A solidez de convicções contra Cuba dissolveu-se. Resta agora, encarar “com serenidade nossa posição social e nossas relações recíprocas.” Ou não?

2 comentários

  1. Delza Maria Frare Chamma em 13/05/2015 às 14:48

    Bravo, Cecílio! Bravíssimo! Nesta aula de hoje o mestre superou-se. Agradecemos por ela.

  2. Vardir Chamma em 13/05/2015 às 17:46

    Pois é!!!!!!! Sua crônica me fez, como leitor, lembrar-me de que a História acaba sempre por revelar a verdade. Nos nossos dias a turba que desfilou na Avenida Paulista em tentativas contra a democracia é a mesma classe média que entusiasticamente participou da Marcha com Deus pela Família e Propriedade no golpe de 64. Ela não aprende nem mesmo com a História. Muito boa sua crônica, Cecílio!!!!!!!!!!!!!!!!!

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