A coruja de Minerva

Ora, tenho consciência de não ser, eu,  o mais habilitado para comentar a respeito de  jornalismo, em especial o dos meios eletrônicos de comunicação. Pois, estou entre a minoria que, com mais de 60 anos de atividades, tem o privilégio de considerar  o antes e o agora, as mudanças, as transições. E isso significa pertencer a uma escola jornalística antiga e diferente.  Era quando, mais do que profissão, jornalismo exigia compromissos missionários, idealísticos, como que um sacerdócio. Jornalistas, poetas, escritores, músicos e loucos estavam “à gauche”, membros de uma mesma tribo.

Antes da notícia, buscavam-se ideias.   Havia causas. As redações eram escolas de cultura, pontos de encontro da intelectualidade, locais de debates e até mesmo de conspirações. Jovens com aspirações artísticas e culturais ansiavam por ter acesso a uma redação de jornal, na busca de poderem  beber da sabedoria e do conhecimento dos mais experientes e cultos. Jornais eram universidades da vida. E, neles, aprendia-se a ser “sereno como as pombas, esperto como as serpentes.” Palavras-chave indicavam rumos: honradez,  verdade, interesse coletivo.

Jornalismo sem causa não existe. Logo, o fundamental está em saber-se qual a causa movedora do produto que chega ao público.  Pois há causas boas e más, dignas e indignas, idealísticas e materialistas, ideológicas e apenas mercantis. Saber disso é a condição essencial para se aquilatar a informação. Um cidadão mal informado é mais vítima de manipulações do que o desinformado.

O novo – que é o de sempre – papel da imprensa está na depuração.  O mais importante não é a notícia em si, mas a análise de suas conseqüências, o comentário, a reflexão. A reportagem investigativa, o editorial, opiniões, participação do leitor,  a pluralidade de pensamentos – parece cada vez mais claro o papel do jornalismo impresso.

Por isso, nessas trevas e obscuridade, surgem sinais do retorno da coruja de Minerva, símbolo da sabedoria. Ela levanta voo no  sombrio da noite. Já estamos nele.

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