O vazio

Quase sempre, encontramos pessoas discutindo sobre felicidade plena, paz, alegria permanentes. Tais, acho-os desejos pungentes do ser humano, em busca de sua totalidade. Que não existe, que jamais será possível em vidas perecíveis, finitas.  Pois, como comparação, um copo, poderemos enchê-lo e fazê-lo transbordar com porções d´água, mas seremos tolos se quisermos que ele retenha as águas de um rio, ou do mar.

Conseguir viver serenamente com a consciência dos limites de nossas insatisfações e desejos é privilégio de quem alcança um mínimo de sabedoria. Acredito, porém, que, até o fim, alimentaremos carências d´alma, além das que nos doem no corpo. Aliás, a alma costuma sofrer mais do que o corpo, acho eu. “Se o coração ficar doente, nunca mais irá curar-se.” – não me recordo de quem o pensamento, mas pouco vi de tão verdadeiro.

Medito sobre isso ao término de cada livro que escrevo. Os franceses chamam de “délivrance” o ato de parir. É o libertar, livrar-se, já aportuguesado para delivrança. Um livro, uma música, um quadro, uma escultura completados – esses são o “parir” de um criador. Mulheres – na imensa arte da gestação – conhecem, dando à luz sua criatura, a profunda alegria da sua obra e, logo em seguida, o inexplicável vazio de não mais tê-la dentro de si.

Entreguei, a meus conterrâneos, no último sábado, o livro “Piracicaba, a `Florença Brasileira”. Foi-me uma outra minha “délivrance” literária, com todas as emoções, sonhos, dores, tensões, alegrias de uma geração espiritual. Agora, veio-me o mesmo vazio, de um momento puerperal após outro parto da alma. É tão sufocante que nada mais parece existir.

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