Sua Majestade, o Mercado

Entende-se por “deus ex-machina” o deus surgido da  máquina. É a divindade poderosa e inexplicável que resolve problemas em obras ficcionais. Já há algumas décadas, o Brasil tem esse deus todo poderoso, materialista, solucionador de problemas que podem afetar os donos do poder. Trata-se de Sua Majestade, o Mercado. A máquina de moer e de massacrar alma, corpo e espírito humanos é implacável em sua tirania. E é quem – ou através da qual – criam-se destinos, amoldam-se vidas como que feitas de argamassa, selecionando os que devem comandar e os que serão apenas comandados.

Nada se faz sem consultar, antes, Sua Majestade, o Mercado. E este tem veículos extraordinários para se impor, para amedrontar, para definir rumos. Meios de comunicação e Bolsas de Valores são, dos veículos, os mais eficientes. Nada se faz, nada se ousa, nada se constrói antes de imprensa, rádio, televisão, internet anunciarem o que a Bolsa deseja. O simples ato de descer e subir determina o rumo de nações e de povos.

O Mercado não mais se importa com o humano. Importa-se – e muito! – com cifras, perdas e ganhos, ações de empresas, com o subserviente comportamento de bancos. E, aqui, a dúvida: bancos dependem do Mercado ou são, eles, o próprio Mercado?

O cidadão e a cidadania foram substituídos pelo consumidor e consumo. Quem consome pouco não existe. O idiota do grande consumidor é o bem-amado do Mercado. E, sem o perceber, tornamo-nos escravos, dóceis escravos. Antes, na época dos tiranos, o trabalhador era escravo total. Com a chegada dos reis, tornou-se servo. Com o que chamam de liberdade, livre comércio, democracia – o trabalhador é o escravo assalariado. Sua Majestade sabe o que faz. É insaciável e cada vez mais faminta. Mas começa a cambalear…

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