“Você já se vendeu?”

Então, uma jovem perguntou à outra: “Você já se vendeu?” Surpreso – e por conhecê-las  – intrometi-me, querendo saber do que se tratava. Seria possível que, universitárias, falassem de prostituição? Mas a jovem respondeu à amiga: “Até agora, não. Já entreguei currículos, fui entrevistada, não consegui nada.” Ainda abismado, entendi: “vender-se” significava conseguir emprego!

Penso em minha terra amada, tão pródiga em história, em pioneirismo e com seu linguajar singularíssimo. Parece, nela, também haver algo de profético. Pois, ouvindo as jovens, veio-me à lembrança  o que minha gente já dizia, há décadas , de pessoas medíocres: eram chamadas, e ainda são, de “coiso”, ”coisa”. Políticos de Brasília, por exemplo,  são “coisos”, gente de se desprezar. E Brasília é, também, aquela “coisa”.  Aliás, quando se quer realizar qualquer atividade – inclusive amorosa – basta dizer que se deseja “coisá”.

Parece-me beirando a  tragédia, a coisificação do ser humano nessa nossa quadra dos tempos. A decantada e preciosa dignidade humana esboroou-se. E essa depreciação não acontece apenas agora. Trata-se de uma corrosão gradativa, que nos acompanha há muitas décadas. Na verdade – e me repugna pensar nisso – sempre houve  a classificação do ser humano muito mais pelo que ele tem, pelo que pode produzir e servir, do que  por sua dignidade como criatura humana.

“Você já se vendeu?” – a pergunta da jovem ainda me angustia. Aceitaram – até mesmo inconscientemente – ser mercadoria, objeto de compra e venda, coisa. A  desregulada economia de mercado intoxica as pessoas, envenenando-lhes a alma com a imposição de mais e mais, sob o falso pretexto de aumentar a produção.  Lembrando  que os EUA gastaram dois trilhões de dólares para a carnificina no mundo,  vemo-nos mergulhados no sanguinolento teatro do absurdo. Milhões de pessoas são apenas   “coisas” em todo o mundo.

Há uma  dolorosa e amarga prostituição em tudo isso. E você, já se vendeu hoje?

 

 

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