Mestre piracicabano do violão

belucco

Sergio Belucco

O talento do violonista piracicabano Sergio Belucco é reconhecido nacionalmente. Um dos maiores pesquisadores da música popular brasileira, Ricardo Cravo Albin, dedica um verbete a ele em seu Dicionário da MPB. Belucco tem destacado não apenas o fato de ser um virtuose no instrumento, que começou a estudar aos 13 anos, com o avô, mas também sua fama como professor, pelo qual passaram vários talentos, incluindo Alessandro Penezzi e Nivaldo Santos.

Aos 86 anos, ele não se dedica mais cotidianamente à música, por conta de problemas de saúde. Nesta entrevista, publicada em A Província em 2006, ele falou da seresta, dos grupos musicais em que atuava, dos tempos em que também foi alfaiate e de como quase trocou a música pelas artes plásticas.

A PROVÍNCIA – A seresta é eterna?

Sérgio Belluco – Eu acredito que sim. A seresta é um gênero musical que está embutido nas pessoas simples e românticas. Enquanto existir romantismo, ela resiste.

Por que é mais apreciada pelas pessoas simples?

Não é só no sentido econômico, às vezes não tem a ver. É que há necessidade de que a pessoa tenha sensibilidade, um espírito mais tranquilo.

Como ser assim no mundo de hoje, que é tão agitado?

Sei que isso é difícil. Por isso é que a seresta era mais apreciada nos tempos passados, quando era muito mais cultivada. É que você tinha condições de andar sossegado pelas ruas da cidade, tudo favorecia a esse modo de ser da autêntica música provinciana.

A seresta pode ser definida como a verdadeira música provinciana?

Ela é a tradução da música provinciana, assim como a música sertaneja é a tradução do mundo rural.

Hoje em dia a seresta seria um refúgio dos românticos?

Não diria um refúgio, porque você não precisa fazê-la como era feita no passado para apreciá-la.

Como eram as serestas antigamente?

Nos anos 50 e 60 eram feitas nas ruas da cidade sempre com instrumentos típicos. As letras das canções são sempre românticas. Naturalmente havia um endereço certo, a amada de quem nos contratava. Então tinha uma hora que as luzes da casa começavam a se acender e a apagar, sinal de que a homenageada estava ouvindo. E ela não saía, aliás o gostoso era ficar ouvindo na cama, deixando rolar o pensamento. Também era de bom-tom, depois que terminassem as canções, o dono da casa convidar os músicos para um café ou um chá.

E hoje isso seria impossível de fazer, não?

Seria muito difícil. Como saber se você vai acordar alguém com uma canção se hoje as pessoas demoram para dormir, ficam ligadas até às duas, três da manhã? Como, se hoje boa parte mora em grandes prédios? A não ser que se faça nos arrabaldes, mas aí tem o problema da segurança.

Serestas assim só em ocasiões especiais…

Exatamente. Mas há a Noite da Seresta, que é feita mensalmente no Largo dos Pescadores, e já existe o projeto de fazer em vários bairros.

Isso mostra que Piracicaba valoriza esse tipo de trabalho, não é?

Disso não posso me queixar, a cidade sempre valorizou.

O senhor sempre conseguiu viver de música?

Sempre convivi mas nem sempre vivi só com a música, o quem tem diferença.

Já seguiu outras profissões?

Fui alfaiate e tive minhas experiências com artes plásticas. Aos 10 anos fui estudar desenho com Frei Paulo Maria de Sorocaba, com noções de perspectiva, sombreamento. Mas não cheguei a seguir profissionalmente. A partir dos 13 comecei a me dedicar mais à música.

A família do senhor influenciou?

Sim. Aliás, acho que o gosto pela música também é genético. No meu caso falou pelos dois lados, tanto de pai quanto de mãe.

O senhor chegou a se formar em música?

Dos 13 aos 18 anos dedicava meu violão de forma mais intuitiva, sem muito conhecimento teórico. Mesmo assim, me apresentava de forma amadora e tinha meu programa na Rádio Difusora. Mas como sou exigente e achei que não estava a contento, entrei para o Conservatório em Campinas e me formei em 1958.

E paralelamente se dedicava à alfaiataria?

Sim, tive minha oficina em casa durante 25 anos. Acho que o alfaiate é o artista da costura, deixa as pessoas realmente mais elegantes. É uma profissão paciente e silenciosa, assim como a música. Aliás, para ser bom músico você também tem de apreciar o silêncio.

Hoje a alfaiataria, nos moldes em que o senhor fazia, também está acabando?

Está. Se não acabou, está diminuindo bastante. Agora a fabricação de roupa é em escala industrial, não depende do trabalho sob medida.

Há quanto tempo o senhor dá aulas de violão?

Leciono desde 1954, quando fui convidado pelas senhoras da Pro Arte de Piracicaba. Depois fui para a Escola de Música de Piracicaba, onde dei aulas até 1981. Me aposentei em 1981, mas continuei na ativa até alguns anos depois. Hoje são meus alunos que tomam conta da festa.

O senhor percebe logo nos primeiros acordes quando um aluno tem talento?

Percebo. Aliás, percebo até antes, no jeito dele falar, se ele é muito ansioso, se está preocupado demais se vai conseguir dinheiro com a música, não acho positivo. A música é um encanto na vida, para mim é essencial na comunicação. O problema é que o professor não tem o poder de definir, de dar uma segurança quanto ao objetivo que o aluno espera. Eles sempre vêm a mim com a pergunta: será que vou conseguir viver só da música?

E o senhor pode responder sempre?

Acho arriscado dizer que ele pode, pois há mais dificuldades a serem enfrentadas. Para viver só de música é preciso um dom excepcional.

Talento só não basta?

Não. É preciso muita perseverança, tempo de dedicação, são necessárias no mínimo quatro horas por dia de estudo. Tive muitos alunos que pareciam seguir carreira, mas em vista das dificuldades, acabaram procurando outras coisas para ganhar a vida.

Que ex-alunos lhe dão orgulho?

Ah, são vários. Entre muitos eu poderia citar o Nivaldo dos Santos, que é um grande talento mas preferiu se dedicar à música popular. Tem outros que não seguiram música profissionalmente como Marcos de Almeida, Walter Marafon, Plínio Volpato, Benedito Inácio, Gisele Berto e Ivete Machado. O Gerelmager Gonçalves se encontrou como músico de eventos e casamentos, o que faz tremendamente bem. E por último o Alessandro Penezzi, que está fazendo uma carreira maravilhosa que só me dá orgulho.

De quantos grupos musicais o senhor participa?

Tenho um regional, o conjunto de chorinho Som Brasileiro e também um sexteto de violões que se dedica mais à música erudita.

Os jovens apreciam esse tipo de música?

Tenho notado que em nossas apresentações muitos conhecem e gostam. O que falta para muitos é oportunidade.

Falta divulgação?

A música de nível elevado exige uma platéia mais selecionada e parece não dar retorno para a mídia, que é muito imediatista.

 

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