Os primeiros épicos

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O Nascimento de uma Nação

Épico, ensina o dicionário, vem do latim epicus e classifica uma ação heroica, com fatos verídicos ou inventados. No cinema, épicos são filmes com grandes orçamentos, elencos numerosos, cenários espetaculares. E que, justamente por isso, precisam contar com efeitos especiais. Porém, no começo do cinema, a técnica ainda era rudimentar, e os cineastas usavam mais a imaginação.

Esse gênero também nasceu na Europa, como o próprio cinema. Mais especificamente na Itália, talvez para recordar o passado glorioso durante o império romano. Épico italiano mais famoso da época do cinema mudo, Cabíria (1914) conta a história do rapto de uma jovem romana por piratas fenícios durante as Guerras Púnicas. Mas elas são resgatadas por um espião romano e seu criado, Maciste, uma montanha de músculos. A partir daí, o personagem Maciste ficou famoso. O filme conservou seu poder de atração mais de um século depois de ser feito. Dirigido por Giovanni Pastrone, envolvia números grandiosos como cinco mil figurantes, mil cavalos, 200 elefantes e 200 camelos.

Acontece que o estouro da Primeira Guerra Mundial, em 1914, provou adiamento das produções cinematográficas no continente, devastado pelo conflito. Com isso, os americanos tomaram a dianteira e o nome mais famoso foi D. W. Griffith. Em 1915, ele lança O Nascimento de uma Nação, épico polêmico até hoje. São 190 minutos que mostram a Guerra de Secessão Americana (1861-1865) pela ótica de um confederado. Griffith saúda, em sua narrativa, o surgimento da sociedade secreta Ku Klu Klan, “que salvou o Sul da anarquia do domínio da raça negra”, segundo suas próprias palavras.

Os supremacistas brancos (hoje infelizmente de volta ao noticiário) eram os heróis e os negros vilões que os ameaçavam. Coerente com suas ideias, o diretor não escalou nenhum ator afro-americano: eram brancos com os rostos pintados de preto. Griffith foi o primeiro exemplo da indústria do cinema em que um talento fulgurante pode estar combinado com um caráter deplorável. Fustigado pelas críticas, Griffith lançou logo em seguida Intolerância, em que ampliava sua narrativa para outros tempos e lugares, como a antiga Babilônia. Mas alguns nunca o perdoaram…

Enquanto isso, Thomas Ince conseguia sucesso com o alegórico e pacifista Civilização, de 1916. Ince foi um grande nome também atrás das câmeras, pois ajudou a definir o papel de produtor executivo, desenvolveu os sistemas de estúdios em Hollywood e criou a primeira produtora independente de seu país, a Triangle. O que ele anteviu é que os novos filmes precisavam de sets maiores, camarins e objetos de cena. Logo surgiu Cecil B. de Mille, nome que define a essência do épico, em várias fases. Em 1923, ele rodou a primeira versão de Os Dez Mandamentos (que retomaria mais de 30 anos depois, encerrando a carreira), que contava a história bíblica de Moisés. De trajetória intensa, dirigiu 80 filmes.

Os europeus só voltariam a criar épicos depois da guerra. O francês Abel Gance teve grande destaque ao reproduzir a história de Napoelão em 1927. Na Alemanha, o grande nome era Fritz Lang, que criou a série Os Nibelungos, baseada num poema épico sobre o guerreiro Sigfried.

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