“Amada Amante” nasceu em Artêmis

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Foto: Fabio Rubinato

Foi em 1966 que aconteceu a primeira visita de Roberto Carlos a Piracicaba. Em promoção da antiga Rádio A Voz Agrícola do Brasil, ele se apresentou num palanque colocado no Largo da Catedral.

Piracicaba literalmente parou para ver o então “Rei da Jovem Guarda”. O delírio da juventude contagiou a todos e extrapolou para os mais velhos. O tráfego de veículo na área central paralisou-se.

O nosso sempre companheiro, Roberto Antônio Cera, o Cerinha, filmou em precário Super-8 aquele show que se tornaria histórico. Sem jamais imaginar que ídolo latino-americano iria tornar-se aquele jovem cabeludo de andar claudicante, fui convidado a jantar com ele na residência da vereadora Maria Benedita Penezzi, a Ditinha, que o hospedou. Fui, confesso-o, a contragosto pois, para mim – naqueles primeiros anos de ditadura militar – a “Jovem Guarda” representava o “ópio da juventude”. Já aconteciam os monumentais “Festivais da Record” (de música popular brasileira) que, naquele ano, revelavam novos astros, como Chico Buarque, Geraldo Vandré (suas músicas, “A Banda” e “Disparada”, incendiaram o país de entusiasmo), com os quais tentávamos gritar alguma forma de protesto.

Ditinha convidara-me – como jovem diretor de a “Folha de Piracicaba” – à espera, eu o sabia, de dar-lhe destaque como privilegiada anfitriã do Rei. Minha lembrança não é agradável.

Lá estava, eu, ao lado de um moço completamente ausente de tudo, ainda suando abundantemente, indiferente a nós que estávamos à mesa. Roberto Carlos era um jovem como que ausente do mundo, nunca soube se ainda extasiado pelo sucesso de sua apresentação, se contagiado pela explosão popular, se por algo artificial. Não me recordo de uma só palavra dele. Mas lá estivera, eu, com o Rei Roberto Carlos no seu primeiro jantar familiar em Piracicaba!

Em 1978, Roberto Carlos voltou a apresentar-se para os piracicabanos. Seu reinado como “Rei da Jovem Guarda” acabara, mas ele se tornara verdadeiro Rei das emoções do povo brasileiro, majestade do cancioneiro popular brasileiro, da mesma maneira como Pelé é, ainda e também, o Rei do Futebol. O acontecimento, também espetacular, ocorreu no C.C.R. Cristóvão Colombo.

Na fascinante Artêmis

Lá era o Porto João Alfredo, por onde D. Pedro II (no Limoeiro) passou de barco a vapor. O nome João Alfredo foi homenagem a governante paulista que inaugurou a ferrovia até aquele porto.

Muitos anos depois, tornou-se Artêmis – referência à deusa silvestre, dada a exuberância do lugar. João Chiarini insistiu para que se alterasse a pronúncia, para Ártemis, considerando a grafia correta (Artêmis e Ártemis existem). E foi onde Roberto Carlos, fascinado – por sempre ser hóspede de seus amigos Heribaldo e Ester Zardetto de Toledo, Armando e Norma Dedini – quis adquirir um rancho vizinho deles. E lá plantou sua morada como paradisíaco refúgio onde pudesse amar, compor, meditar.

Casado com Nice, ambos formaram verdadeiro casal de pombos, reclusos, recebendo apenas poucos amigos, mas promovendo festas que se tornariam uma das maiores curiosidades da região caipiracicabana. Era a “Casa do Rei”, Piracicaba orgulhava-se de proclamar. E nossa terra foi seu reinado, como se toda uma cidade se transformasse numa feliz comunidade de vaidosos vassalos.

“Amada, Amante…”

Uma das mais belas canções brasileiras – entre as preferidas de todo o povo – é “Amada Amante”.
Roberto Carlos a compôs – enlevado pelo seu vívido amor, vivido na lua-de-mel caipiracicabana – na maviosa Artêmis.

Nela, ele transborda de sensualidade, transuda todo um erotismo sem amarras ou preconceitos. Ele próprio diz ser uma de suas criações preferidas, inspirada em sua amada Nice: “Esta é especial
para a Nicinha. A letra nasceu numa noite, quando eu estava deitado, tranquilamente, na cama. É também uma homenagem à esposa amante que sabe amar e entender um homem. Com essa
canção acho que consegui mostrar exatamente tudo o que sinto pela minha mulher. Nice é uma companheira sensacional. A música é do Erasmo”, declarou Roberto, na época.

Lançada em 1971, ela foi composta no momento em que Roberto Carlos vivia dificuldades para conseguir oficializar seu casamento. Num tempo marcado por guerras, guerrilhas e violência urbana, Roberto Carlos não se conformava com o fato de não poder oficializar o amor que sentia por sua amada mulher, a Nice.

Nossa Artêmis foi berço, sacrário, leito, convento, capela de um amor que produziu um das mais belas e apaixonadas músicas de nosso cancioneiro.

Primeiros “amantes oficiais” de Piracicaba

Que houve amantes e adultérios em todos os lugares do mundo e em todos os tempos da história, não há que se comentar. No entanto, quando é a história que, oficialmente, registra os grandes casos de amor, a realidade é outra, até mesmo para se reelaborar os acontecimentos.

Os primeiros “amantes oficiais”, chamemo-los assim, de Piracicaba, foram a viúva Maria Flor de Moraes e o sargento mor Carlos Bartolomeu de Arruda. Ele era encrenqueiro e um dos maiores proprietários de
terra da então freguesia de Santo Antônio de Piracicaba, ancestral de família de notáveis, entre os quais Carlos de Arruda Botelho, o Carlos Botelho de tanta influência política em São Paulo.

A viúva era conhecida, também, como Ana Flor de Moraes, Flora ou Maria Flor. Nos anais da cidade, a história está lá: casado, Carlos Bartolomeu se apaixonou por Maria Flor, tornaram-se amantes, a freguesia se escandalizou, os pombinhos foram denunciados por escândalo público. Maria Flor foi estigmatizada, punida, desterrada, mas continuou amando Carlos Bartolomeu. Até que, por ordem do capitão-general da Capitania de São Paulo, Antônio José da Franca e Horta, veio a ordem para o capitão
comandante da freguesia de Piracicaba, Francisco Franco da Rocha: “Ordeno a V. Mercê, em recebendo esta, lhe mande intimar da minha parte que, como ela (Maria Flor de Moraes) continua no seu antigo e escandaloso concubinato, não obstante o Despacho que lhe dei para não voltar para essa Freguesia, haja de sair dela no termo de três dias, o que V. Mercê assim fará executar”.

Ainda que envolta em mistérios, Ana Flor, a Maria Flor, deve ter sido uma mulher piedosa. Pois, no leito de morte, no dia 22 de outubro de 1827, ela fez seu testamento em que estabeleceu: “Declaro que deixo hua dobla (uma dobra) para as obras da Matriz nova do nosso Padroeiro, o Senhor Santo Antônio, e o meu testamenteiro entregará a dita quantia ao Procurador da mesma obra quando se principiar a dita
matriz”. Concubina, mas parceira na construção da igreja.

Foram os primeiros amantes a constar dos anais de Piracicaba. E as primeiras vítimas de um moralismo que parece não ter fim.

Amada Amante

Roberto Carlos e Erasmo Carlos

Esse amor demais antigo

Amor demais amigo

Que de tanto amor viveu

Que manteve acesa a chama

Da verdade de quem ama

Antes e depois do amor

E você, amada, amante

Faz da vida um instante

Ser demais para nós dois

Esse amor sem preconceito

Sem saber o que é direito

Faz as suas próprias leis

Que flutua no meu leito

Que explode no meu peito

E supera o que já fez

Nesse mundo desamante

Só você, amada, amante

Faz o mundo de nós dois

Amada, amante

Amada, amante

Amada, amada, amante

Amada, amada, amante

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