Nhô Lica, semeador de sonhos

*Texto e imagem do livro “Piracicaba que amamos tanto”, de Cecílio Elias Netto.

nholica

Ilustração: João Monteiro

Piracicaba, em tempos mais serenos, sempre teve os seus chamados “tipos populares”. Ainda devem existir por aí, embora invisíveis à insensibilidade de uma época. No entanto, nenhum foi – e nem será – mais amado e respeitado do que Nhô Lica. Ninguém sabe onde nasceu. Mas cresceu e viveu em Piracicaba, em casa de parentes, os Ferraz de Mello. O seu era um nome nobre: Felix do Amaral Mello Bonilha. Passou, porém, para a história de Piracicaba como Nhô Lica.

Ele era um sonhador, adoravelmente tomado pela santa loucura. Seu universo era mais generoso do que o nosso. Vestia-se de terno completo e chapéu, usava bengalas. E apenas sonhava, o mais ousado de todos os nossos sonhadores. Ele era um garimpeiro de pedras preciosas à beira do rio. Catava alguns pedregulhos, examinava-os e, então – tendo-os como diamantes – guardava-os nos bolsos para depositá-los no então “Banco Commercial”, onde o gerente, “seo” Gustavo Bueno, o recebia principescamente, colocando as pedras numa caixa especial. Nhô Lica dizia-se milionário, afirmando, solenemente, ter saldado a “dívida externa do Brasil”. Também, um patriota.

O autor deste livro deve, a Nhô Lica, o despertar da capacidade de sonhar. Pois, levado pelo meu pai – ainda nos meus cinco anos – ia, quase todas as tardes, à beira do rio onde Nhô Lica garimpava seus tesouros. Ele e meu pai me ensinaram a “garimpar diamantes”. Quando o nosso sonhador morreu, Monsenhor Rosa, vigário da Catedral – então em reformas – foi ao Banco Commercial buscar as pedras preciosas de Nhô Lica para colocá-las no piso da igreja.

Em 1954, amigos e admiradores dos sonhos de Nhô Lica prepararam-lhe o túmulo no Cemitério na Saudade. E, na lápide, a frase: “Aqui repousa Nhô Lica, milionário de ilusões. Foi bom e amou sua terra.” Ao morrer, ele ficou encantado e se tornou lenda piracicabana feita de ternura e saudade.

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