O todo de cada parte (1)

*Aline Fiuza Cichetto é oficial do Registro de Imóveis, Títulos e Documentos e Civil de Pessoas Jurídicas de Capivari, interior de São Paulo. Formada em Direito pela Universidade Mackenzie, atualmente também é estudante de fitoterapia, aromaterapia e Ayurveda. Mãe da Maria Gabriela e da Luara. No texto a seguir, Aline compartilha sua percepção sobre “semear cultura”, ao refletir sobre sua trajetória profissional e pessoal.

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Em tempos de eleições e polaridades tão definidas, em que as feridas de nosso povo quedam-se doloridamente expostas, o tema cultura se apresenta particularmente interessante. Independentemente do ponto de vista ou lado que se tome, a verdade inquestionável é que andamos carentes, não só de recursos básicos, mas de amplitude de visão.

Cultura, para mim, faz parte do que nos permite conhecer um pouco mais da natureza humana e do universo no qual ela se insere e do qual faz parte, e através disso ter insights evolutivos. É o que traz elementos novos a nossa caminhada, e, por diversos meios, nem sempre racionais, permite que aconteçam novas sinapses em nossos neurônios, auxiliando na integração de nosso Ser que pensa, sente e age, com inevitáveis reflexos ao nosso redor. Cultura é conhecimento, e traz a possibilidade de olhar mais de longe a situação que se examina, de forma mais clara. É utilizar nosso lado cognitivo e racional, sem descuidar de nossos sentimentos e instintos. Cultura se semeia por si só, na medida em que existe abertura na recepção.

Sempre fui uma pessoa realizadora, do ponto de vista mais tradicional que se conhece. Desde que concluí a formação em Direito, em 2000, fui aprovada em alguns concursos públicos, e estudei por anos a fio buscando chegar a um lugar que me rendesse alguma segurança e satisfação, dentro da minha “carreira” de registradora. Ao longo desse caminho, assumi três serventias de Registro, em cidades com perfis totalmente distintos, tendo instalado uma delas, e fui agraciada com valiosas lições de cada realidade em que vivi. Hoje, revendo essa trajetória, posso perceber como os objetivos mudaram ao longo da rota. E como o que era principal se tornou secundário, e vice-versa.

Ao assumir um cartório pequeno, aos vinte e cinco anos, numa cidade de dez mil habitantes, tudo o que eu queria era dedicar-me inteiramente ao trabalho e à absorção de conhecimentos teóricos, e tinha a meta íntima de assumir lugares de liderança na classe e viver em uma cidade metropolitana. Em que as pessoas não cuidassem das vidas umas das outras e houvesse inteligência de sobra, a cada esquina e café. Do alto de minha condição de quem recebera uma delegação estatal, e dotada de uma personalidade crítica e perfeccionista, eu me julgava a saneadora daquele local, nos aspectos que tocavam ao meu ofício. Não que o lugar ocupado não o exigisse, mas havia muito a aprender.

Oito anos depois, ao deixar essa cidade para assumir uma nova realidade, na periferia de São Paulo, eu chorava por toda a parte de mim que ali ficava, por tudo que aprendi com os trabalhadores rurais que atendia no balcão, e com os costumes e identidade própria daquele povo, a que eu tentei, a todo custo, pertencer. Sabia, então, que esses costumes e modo de ser, que formavam um silencioso pano de fundo em cada realidade regional, deviam ser respeitados por quem chega – um ensinamento que não existe nos livros de Direito, mas que calou mais fundo no meu Ser do que qualquer outro.

A essa altura já havia se iniciado, para mim, uma busca por autoconhecimento, a partir do que passei a ver minha vida dividida em duas frentes aparentemente distintas e opostas: a corporativa e a terapêutica, repleta de vivências e formações alternativas, às quais passei a dedicar toda a energia e tempo que pudessem me sobrar. Hoje vejo que esses dois aspectos não só se complementam, mas estão profundamente ligados, nutrindo-se mutuamente e dando condições recíprocas de existência.

(continuação no próximo post)

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Mulheres Semeadoras de Cultura

O Projeto “Mulheres Semeadoras de Cultura”, do ICEN – Instituto Cecílio Elias Netto, foi composto por um ciclo de palestras e debates, e a publicação de um livro. Com a coordenação da B2 Comunicação, o Projeto contou com o apoio cultural da Caterpillar – por meio da Lei Rouanet, Lei Federal de Incentivo à Cultura. Para conhecer o Projeto, na íntegra, acesse o link: https://bit.ly/2ml0xyf

Venha, você também, semear cultura

Agora, A Província quer ouvir e publicar sua história; conhecer sua experiência; saber quem são mulheres semeadoras de cultura para você – muitas delas anônimas e desconhecidas. Queremos aprender mais sobre o que é semear cultura e investigar a qualidade da semeadura de todos nós. Por isso, convidamos você a, também, fazer parte deste Projeto!

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