O todo de cada parte (2)

*Aline Fiuza Cichetto é oficial do Registro de Imóveis, Títulos e Documentos e Civil de Pessoas Jurídicas de Capivari, interior de São Paulo. Formada em Direito pela Universidade Mackenzie, atualmente também é estudante de fitoterapia, aromaterapia e Ayurveda. Mãe da Maria Gabriela e da Luara. No texto a seguir, Aline compartilha sua percepção sobre “semear cultura”, ao refletir sobre sua trajetória profissional e pessoal. Este post é a continuação e conclusão do conteúdo apresentado no post anterior.

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Aline Cichetto, com as filhas Maria Gabriela e Luara: “Através da procriação podemos experimentar um pouco do que faz valer a Vida, inexplicavelmente, e, ao mesmo tempo, entramos em contato com nossa pequenez de forma tão crua e profunda.”

(continuação do post anterior – parte 2, final)

Quando assumi minha terceira Serventia de Registro, num município de cinquenta mil habitantes, onde atualmente vivo, meus objetivos já tinham mudado radicalmente. Não existia mais a vontade de viver no ritmo de uma metrópole. O céu limpo e tranquilidade das ruas, em que se podia caminhar a pé, encheram de alegria meu coração. Foi gratificante perceber, ao longo dos anos, uma identidade cultural caracterizada, em geral, pela confiança e honestidade, como só acontece nos lugares em que ainda se conhece a maioria das famílias. Eu, que sou nascida no interior paulistano, já buscava honrar e reconhecer minhas raízes.

Nesta cidade casei-me e tive duas filhas. Ambas nascidas em casa, cidadãs daqui. A maternidade abriu um mundo pra mim, desde as gestações, no qual sigo eternamente buscando me reinventar. Nela se desvelam minhas fraquezas e incoerências, vivo meu maior contentamento, o amor mais intenso e os maiores desafios. A Natureza é perfeita. Através da procriação podemos experimentar um pouco do que faz valer a Vida, inexplicavelmente, e, ao mesmo tempo, entramos em contato com nossa pequenez de forma tão crua e profunda.

Sinto que, desde que isso tudo começou, o que surgiu e tem crescido em mim foi a disposição de olhar nos olhos das pessoas com quem convivo, no ambiente de trabalho ou no balcão de atendimento, buscando ver o que existe ali. E de saber que, apesar de estar num serviço em que prevalecem as regras cogentes e procedimentos formais, há sempre uma finalidade humana que dá razão à sua existência. Um conteúdo que vale mais que a forma. E que podem ser buscadas soluções criativas, que partem da nossa própria humanidade, em conexão com O que a mantém, e considerem essa mesma natureza e as necessidades mais variadas que dela decorrem. Dentro do possível. Dentro do sistema. Esta é minha história, de resultados tão pequenos que não podem ser mensurados ou reconhecidos, mas que alimentam minha alma, e me motivam continuar caminhando.

Outro dia um antigo funcionário me escreveu contando que estava assumindo um cargo de direção, em seu novo local de trabalho, e agradecendo o começo que teve ao meu lado. Houve muitos começos, meus e daqueles com quem cruzei ou caminhei. Mas sinto que é a si mesmo que cada um pode agradecer. O que me faz sentir que semeio alguma coisa por onde passo é o lugar de respeito à condição de cada um com quem lido. E isso passa, necessariamente, por mim. Algo que pode ser aprendido a cada dia, de difícil quantificação. Só o próprio jeito de me mover em meu espaço pode refletir de alguma forma nas realidades ao meu redor.

E hoje, depois de quinze anos exercendo a mesma profissão, à frente de dezoito colaboradores a quem tanto sou grata, posso dizer que o que me traz alguma realização, em meu ofício, é lidar com as pessoas. Resolver a cada dia os desafios que surgem, de forma colaborativa, e ver a união dos esforços abrindo portas e solucionando questões. Sentir, nos olhares, o respeito que só se conquista com respeito, mesmo dentro de um sistema com funções e lugares definidos. E, quem sabe assim, fazer parte de uma realidade que incentiva que cada um se direcione ao que aspira a própria alma.

Para conhecer primeira parte deste artigo, acesse o link: O todo de cada parte (1)

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