Maria Helena e Heleninha, o outro lado da medalha (2)

Jornada de trabalho pesada

Se, na época, ambas eram ovacionadas nas quadras, Piracicaba se levantava para aplaudi-las. Heleninha já fora apontada como a melhor jogadora do mundo apesar da altura, o seu dia a dia não era tão fácil.

No dia da inauguração da Casa do Bolinha, como o capital fosse pequeno, o estoque também era reduzido. A loja, que vendia artigos para festas e ocasiões especiais, como Natal e Carnaval, tinha toda a mercadoria conseguida em consignação pelo irmão de Heleninha, que trabalhava no mesmo ramo, em São Vicente. Acontece que, justamente no primeiro dia, um senhor entrou na loja, observou e pediu rápido: mil pratos de papelão, de um determinado tamanho, para um churrasco. Maria Helena já ia se desculpar – não havia mais do que cem unidades disponíveis –, quando Heleninha, como boa armadora também fora das quadras, pediu que o freguês aguardasse enquanto ela ia buscar no estoque. E correu até a Livraria Brasil, comprou o necessário e entregou ao cliente, que nunca mais deixou de comprar na loja.

Não se pense, entretanto, que eram tempos fáceis. As duas se revezavam na loja e na escola na Usina Costa Pinto, comiam de marmita atrás do balcão, e tinham como ajudantes só mesmo o pai e a mãe de Heleninha. Mas este tipo de esforço não era novidade: rindo, ambas lembram que quando quiseram seu primeiro Fusca, compravam doces caseiros em Descalvado e revendiam de porta em porta, entre seus fãs de Piracicaba, para o dinheiro das prestações. E até transporte de crianças fizeram: como as lotações atuais, pegavam e levavam da escola para casa, as crianças do Jardim de Infância Peixinho Vermelho.

Heleninha

A pequena Heleninha, titular invicta na seleção brasileira.

Foi exatamente no final dos anos 60 que ambas deixaram, inclusive, de atender as convocações da seleção para conseguirem cumprir a jornada de trabalho como professoras, os treinos do time local e a administração da Casa do Bolinha.

Veio então a morte, no período de 11 meses, do pai e mãe de Heleninha, quase pai e mãe adotivos de Maria Helena. Grandes incentivadores de ambas, foi pensando neles que elas voltaram à seleção, deixaram a loja com os empregados e viveram, entre 71 e 73, talvez os anos mais difíceis de suas vidas.

Elas eram as estrelas. Mas levantavam de madrugada, cursavam Educação Física até as 11:00 horas no Piracicabano, passavam pela loja e ali almoçavam enquanto atendiam os viajantes. Em seguida, lecionavam nas classes da Usina Costa Pinto e, entre 17:00 e 19:00 horas, treinavam. A partir das 19:30 horas voltavam para o Piracicabano para fazerem Pedagogia. E, por incrível que possa parecer, terminaram o curso de Educação Física em primeiro e segundo lugares, com décimos de diferenças nas notas, sendo homenageadas na formatura. Sem qualquer dependência ou reprovação.

Foi só em 1976 que ambas prestaram concurso para professores de Educação Física, fixando-se, então, no Mello Ayres e Zagatto. Era o começo de uma nova fase.

Maria Helena

Maria Helena na seleção Brasileira.

A parada nas quadras se dera alguns anos antes, de uma maneira surpreendente e definitiva, bem ao estilo que até hoje as caracteriza. Uma noite, após vencerem o título de um Torneio de Estrelas, defendendo a camisa do Clube Atlético Piracicabano, ambas sentaram-se no banco, tiraram o tênis e os colocaram nas costas. Ninguém viu o simbolismo do gesto: as duas deram a volta na quadra, descalças, fazendo a sua despedida do público sem que ninguém soubesse. Só no vestiário contaram às companheiras, pediram um abraço mais demorado e nunca mais retornaram. Uma coisa era clara: ambas não queriam viver sua própria decadência, como atletas, e nem homenagens ou despedidas. Era apenas parar. Na hora certa.

(continua)

Esta matéria foi originalmente publicada no jornal impresso “A Província”, na edição de 10 a 29/agosto/1991. Para conhecer o texto na íntegra, acompanhe a TAG MariaHelena Heleninha

1 comentário

  1. Jaqueline Bigaton Porto em 11/10/2019 às 15:27

    Minhas amadas professoras…até hoje, tenho uma “singela” cartinha escrita por elas em meu arquivo de lembranças de minha infância inesquecível!!Reverencio Maria Helena e Heleninha !!!💓💓💓Saudades imensas !😍😍😍😘😘💓💓

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