“Os Três Garimpeiros”, quem se lembra?

O texto abaixo foi publicado em dezembro de 1987 no semanário impresso A Província. Preservamos datas, idades, comentários e gramática originais do texto.

g1

A província viveu dias agitados em 1952. Uma equipe de cinema, reunindo atores famosos, chegou aqui para filmar “Os Três Garimpeiros”. Naquela época, a televisão mal tinha começado e os grandes ídolos eram do rádio ou do cinema, principalmente os da Vera Cruz. E o elenco reunia nomes consagrados como Anselmo Duarte, Hélio Souto, Alberto Ruschel, Milton Ribeiro, Aurora Duarte e Launa Marçal, que estavam em fase de grande sucesso.

Dava pra se prever o alvoroço em que ficou a cidade com a presença deles durante 4 meses. O fotógrafo José Alberto Cantarelli, que participou como assistente de iluminação e fez algumas cenas como figurante, diz que “eles foram bem recebidos e usufruíram de tudo que a cidade podia oferecer, porque o povo paparicou muito eles, já que nunca tinha vindo uma equipe de cinema pra cá”.

O Grande Hotel, onde ficaram hospedados, viveu uma fase de grande confusão, como conta Cantarelli, “porque os rapazes da cidade viviam dando em cima das duas atrizes principais, que eram muito bonitas. As moças também não ficavam atrás, porque os galãs também eram muito procurados. Tanto que o Orsini, dono do hotel, se cansou daquilo e também da falta de pagamento, e mandou eles embora”.

Se houve problemas, as filmagens também acabaram trazendo casamento, pois foi aqui que o ator Hélio Souto conheceu Maria Helena Morganti, filha do comendador Morganti, em cujas terras eram feitas locações, e eles acabaram se casando algum tempo depois.

A mentalidade mais aberta do pessoal do cinema também trouxe novas posturas para os piracicabanos. “Um dos atores — conta Cantarelli — apesar da pose de durão nas telas, era homossexual bastante assumido e não fazia questão nenhuma de esconder isso. E isso não era costume aqui na época.”

g3 (4) g3 (1)

BANG-BANG À BRASILEIRA 

“Os Três Garimpeiros” tinha um enredo que era bastante parecido com o de um filme de bang-bang. Anselmo Duarte, Hélio Souto e Alberto Ruschel eram três irmãos que procuravam ouro e tinham que lutar contra o vilão Milton Ribeiro, que queria roubar o que eles encontrassem. A idéia de rodar o filme aqui partiu de Francisco Andia, que era dono da “Águia Filmes” e o diretor era um francês chamado Jean Pons.

As filmagens aconteceram principalmente no Engenho, mas também com algumas cenas realizadas à beira do rio e no Monte Alegre. Segundo Cantarelli, o que mais marcou os trabalhos foi uma característica típica do cinema nacional: a falta de dinheiro. “Com isso, muita coisa teve que ser improvisada. Tinha uma cena em que a Aurora Duarte aparecia com sua empregada numa carruagem com dois cavalos pretos. Em primeiro lugar, não tinha quem fizesse o papel da empregada, então foi chamada uma negra da zona do meretrício chamada Sinhá. Depois, a cena teve que ser interrompida porque começou a chover. Só que no dia seguinte eles não conseguiram alugar dois cavalos pretos. Então, no filme aparecem no começo dois cavalos escuros e depois, de repente, um deles fica branco.”

Também houve problemas para conter o pessoal da figuração. “Tinha uma cena importante do filme, em que umas cabanas à beira do rio eram incendiadas. Só que nos ensaios, o Celsinho Lacorte se entusiasmou e tacou fogo de verdade antes da hora. E a cena teve que ser refeita uns meses depois.”

Com tantas dificuldades, o filme não podia realmente ser bem recebido pela crítica, dizem até que foi considerado o pior do ano, mas como diz Cantarelli, em Piracicaba foi o maior sucesso: “Todo mundo assistiu aqui, passou no cine Politeama, que ficou sempre lotado. E o que o pessoal mais gostou foi de ver as figuras conhecidas e ouvir o sotaque piracicabano num filme”.

CAVALÃO DE MUIÉ

g3 (3)

g3 (2)

 

Gregório Marchiori também participou de “Os Três Garimpeiros”, mas como figurante. “Eu tinha treze anos na época e a turminha que, como eu, não tinha nada o que fazer, acabou entrando em algumas pontas.” Gregório participou da cena da queima das cabanas, e era apenas isso o que fez durante as filmagens.

O que ficou marcado para ele foi a presença das duas atrizes, Aurora Duarte, “era a mais bonita do cinema brasileiro, a Cláudia Raia da época” e Luana Marçal. “Esta parecia uma índia, tinha pele e cabelos morenos e seu corpo era sobejamente esplendoroso. Um cavalão de muié!”.

Três anos depois, Gregório foi convidado para atuar em outro filme, “Armas da Vingança”, dirigido por Alberto Severi. “Só que aí eu já apareci com um papel de destaque, meu nome era o sexto do elenco. Eu era o noivo da Aurora Duarte e o irmão mais novo do Hélio Souto. Também trabalhavam a Vera Nunes, que era conhecida como a princesinha das atrizes cariocas e o Luigi Picchi, que era o vilão, pois tinha a cara parecida com a do Jack Palance.”

O filme era uma produção bem cuidada, tinha música do maestro Gabriel Migliore e maquiagem de Eric Rzepecki, atualmente na Globo. E também fez sucesso em Piracicaba, como afirma Gregório. “Passou no cine Palácio e a cena mais comentada foi a da morte do meu personagem, quando eu apareço caindo de um telhado, mostrado de um ângulo diferente e que dava bom efeito.”

GALÃ DA CIDADE 

A partir do filme, Gregório ficou conhecido como o galã da cidade. Já era assim quando assumiu as poses dos galãs da época, como Paul Newman e Tony Curtis em reuniões na Casa Passarela com o pessoal que gostava de cinema. Ele diz que chegou a receber convites para se profissionalizar como ator. “O Eric, o maquiador, queria me levar para o Rio, mas eu teria que fazer curso de dança e outras coisas, e resolvi não aceitar. Mas não me arrependo disso, apesar de achar que o cinema brasileiro está em ascensão, acho que eles ainda insistem em fazer filmes apenas comerciais.”

Deixe uma resposta