Prudente: “Quero morrer como vivi”

O ano de 1902 foi politicamente trágico. O grande líder Prudente de Moraes não resiste mais à tuberculose e morre no dia 3 de dezembro. E, poucos dias depois, no dia 20, morre o Senador Moraes Barros, no Rio de Janeiro.

Piracicaba estremeceu. O Brasil parou. Prudente de Moraes fora o primeiro governador de São Paulo após a Proclamação da República. E o primeiro Presidente civil da República, o Pacificador, de 1894 a 1898. Prudente de Moraes estava inconformado com os rumos da República sob o comando de Campos Salles e de Bernardino de Campos em São Paulo. Deixara ordens expressas para o sobrinho, dr. Paulo de Moraes Barros: queria morrer como vivera e, por isso, nenhum padre deveria ver-lhe o corpo. E, se Bernardino de Campos lhe enviasse coroa de flores, não queria lha colocassem no túmulo, “pois sentirei seu peso debaixo da terra.”

A comoção dominou o povo que se concentrou nas ruas para despedir-se de Prudente de Moraes. A “Gazeta de Piracicaba”, em tom sombrio, registrou: “Fria, cruel, implacável como sempre, acaba de nos roubar a morte, justamente quando a nossa pátria mais necessita de quem lhe dirija com critério e segurança as únicas aspirações que visa as do domínio do direito e do império da justiça, tendo estes por único roteiro e por único alvo a sua felicidade e o seu bem estar, o vulto que talvez nos fosse uma das poucas esperanças, um dos raros confortos do momento atual. Finou-se hoje, pelas 12 horas e 45 minutos da manhã, o eminente brasileiro exmo. sr. dr. Prudente de Moraes.” A “Gazeta”, no dia 4, dava destaque ao choro compulsivo do dr. J.Reginaldo Alvim, o dr. Alvim, quando do elogio fúnebre feito ao ex-presidente. O caixão foi carregado, da Igreja Matriz à sepultura, por dr. Paulo Moraes Barros, Senador Moraes Barros, General Mendes de Moraes, Antonio de Moraes, Adolpho Geraldo, senador Guimarães Júnior, João Sampaio, João e Joaquim de Moraes.

Muitos anos depois, em 1941, o advogado piracicabano Sebastião Nogueira de Lima – que chegara a assumir provisoriamente o Governo de São Paulo – ainda descreveria aquela perda: “No ano de 1902, nas primeiras horas do dia 3 de dezembro, a rua Santo Antonio, nº 6, onde residia e tinha seu escritório, morreu serenamente e em plena lucidez de espírito, o advogado Prudente de Moraes Barros….. Morreu aos 62 anos incompletos. Não era idade para morrer um homem assim de tão grande valor. Quem apressou sua morte foram os desgostos políticos, não foram as lutas profissionais. Ainda foi na convivência dos livros que ele, nos últimos tempos de sua vida, encontrou a merecida tranqüilidade, para morrer como um justo”. A biblioteca deixada por Prudente de Morais compunha-se de 514 volumes, dos quais 300 livros eram de Direito.

Em seu testamento – lavrado no dia 20 de setembro de 1902 – Prudente de Moraes refere-se aos nove filhos de seu casamento com dona Adelaide da Silva Gordo e a um filho natural que teve quando solteiro, de nome José, nascido “de mulher também solteira”. Uma das suas vontades foi comovedora: deixou, para Paulo de Moraes Barros, “sobrinho e devotado amigo, a quem devo muita gratidão, como lembrança, a pena de ouro com que assinei a Constituição da República a 21 de fevereiro de 1891 e as três carabinas.” Sua última vontade foi para que “a minha sepultura seja assinalada apenas por uma pedra, tendo como inscrições meu nome e as datas do meu nascimento e morte.”

Poucos dias depois, a 20 de Dezembro, o Senador Moraes Barros morria no Rio de Janeiro, causando novos traumas a uma Piracicaba enlutada. A herança política e o comando de Piracicaba passavam às mãos de Paulo de Moraes Barros, que se revelaria brilhante sucessor de seu tio e de seu pai.

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