Quem morria ia “para o Gaspar”. A saga dos enterros

Gaspar Fessel foi nomeado zelador do Cemitério no dia 6 de junho de 1874. Em agosto do ano 1900, ele revelou que, ao longo daqueles anos, já tinha “dado sepultura a 22.007 cadáveres”. Gaspar Fessel estava incorporado à Cidade como personagem dela mesma, o “tipo folclórico”. Quando se perguntava a quem estava doente — “Vaes para o Gaspar?” — admitia-se a importância de Gaspar Fessel, identificado com a morte.

Numa realidade rural, morrer era provocar todo um ritual religioso entre os vivos. Tentemos ver a morte de alguém num sítio do Pau Queimado em 1900. O cadáver era colocado numa rede que era fechada para impedir fosse visto o corpo. Em seguida, como se fosse feito um varal, passava-se um pau comprido de uma a outra extremidade da rede. Um ou dois homens carregavam o cadáver em passos compassados. Ao longo da marcha, revezavam-se com outros homens. Iam descansando à margem dos caminhos, sob árvores. Passando por lavouras, pediam ajuda aos roceiros: “Irmãos das almas, venham ajudar.” E os roceiros deixavam de suas foices e machados e enxadas e iam ajudar a carregar o cadáver.

Se viessem pela Rua do Porto, os carregadores do defunto sabiam que, parando na primeira venda — a do Zé Pires — haveriam de encontrar o caixão encomendado por Gaspar Fessel, zelador do Cemitério Municipal. E o problema passaria a ser do Gaspar.

Naquele agosto de 1900, Gaspar Fessel estava magoado com críticas que lhe eram feitas pela “Gazeta de Piracicaba”, que alegava haver demora nos enterros. Gaspar respondeu pelo “Jornal de Piracicaba”, invocando o testemunho de Prudente de Morais que lhe elogiara o trabalho, dando informações preciosas sobre como se enterravam as pessoas. Disse Gaspar: “A culpa não é da cova nem do coveiro: a culpa é dos caixões que, às vezes, são grandes demais.” E Gaspar Fessel garantia estar cumprindo o determinado pelo Código de Posturas Municipais em relação ao tamanho das covas: “9 palmos de cumprimento, 3 de largura e 7 de fundo.” Gaspar assegurava que, às vezes, até aumentava um palmo naquelas medidas. Mas, mesmo assim, os caixões continuavam sendo maiores…

1 comentário

  1. Regina Maria M.M.Andrade em 09/04/2015 às 10:16

    Sr. Cecílio, por gentileza o sr. teria mais notícias da vida pessoal ( nacionalidade) do. Sr. Gaspar. para me informar, Sou bisneta dele, Sei que era alemão e estamos buscando dados para cidadania. Obrigada .

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