Negócios de caipiras em crise.

E intão, Nhô Juca…Cumé que foi a safra que acabô?

– Como Deus quis, Nhô Chico…Nem pra meió, nem pra piór, ficô nos miado…

– Mai deu uns par de conto, num deu? Sempre dá…

– Uns par num digo, mai deu pra pagá as dispesa, mandá um dinherinho pra fia lá nas Oropa, trocá o carro da muié…

– E guardá otro tanto no corchão, né, cumpadre?

– Puis é, mai num fale arto…Os tempo tão bicudo. E seu gado, ingordô?

– Maizomeno, tamém…O mardiçoento de São Pedro num fei chovê muito ni nossa horta, a seca judiô da bicharada…

– Eu sei…Daí, ocê rezô pra Santantônio, pidiu ajuda, ele se acertô cum São Pedro, deu pra ganhá uns trocado, né?

– É, uns trocado deu…E foi a sorte, porque a desgranhenta da crise do açúca pegô tudo nói de carça curta…Eta governo mai lazarento de morfético, hein?

– Põe morfético nisso…Se num fosse ele, eu tinha ponhado mais umas duzenta mir arroba de açúca lá no porto de Santos…Ganhá, a gente ganha uns trocado; perdê, perde até o rabo sortá fumaça…

– Tá difíce…O gerente do banco queria que eu apricasse uns trinta mir conto cum ele: e ocê tá loco, rapai? Despoi do Collor, quem qué ponhá dinhero em banco? E agora, cum esse diz-que-diz-que da negadinha lá de Brasília e do PT, esse pessoar proseando que a vaca vai indo pro brejo, eu, hein?

– Aqui, ó, que eu tamém vô ponhá meu dinherinho ni banco. Nunca vi ninguém sê robado por governo se dinhero for guardado no corchão. É só ponhá arreparo no que tava aconteceno lá antes de Getúlio…E c´os argentino, há poco tempo, cuitado deles.

– Cuitado uma merda. Eu sei o que sofri pro causo das vaca e dos boi argentino, o estrago que os nego fizero cumigo.

– Mai, agora, o governo agarante que num tem perigo, que as coisa ta tudo domada, que ninguém de nói vai tomá o que Luzia tomô atrais da horta.

– Tomara…Mai eu acho essa gente de Brasília manda nói vê co zóio e lambê co ´a testa. Ocê se alembra quando os pai da gente falava pra tomá cuidado com nego que fala muito bunito e macio?

– Ô, se alembro, o, ô. Falá bunito, isso eles fala. A gente tem que se cuidá.

– Bão, eu já vô ino…Mai, antes de i, se ocê num arrepará, eu quiria sabê se ocê pensô na proposta que eu fiz antes de anteonte…

– Ah! De eu vendê minhas duas fazenda pra mecê?

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