Canto Piracicabano: Saudade de pescador

Naquele dia que nói briguemo, mor, o Divino Ispirito Santo sabia que eu num tinha ponhado na cabeça mar argum fazê pra mecê. Sant´Antonho Casamentero, que é meu padroero também, é testemunha como ninguém: eu sempre amei ocê, um sem fim de meu querê. E foi amor de tanta locura que me dava nervura de pensá nas distância: ocê para lá, eu pra cá, nóis doi sem isperança. Inté poesia garrei de poetá.

Numa noite, pitando cigarro na bera do rio, deitado de costa na grama e no capim, oiei pra Lua e pidi: “Lua bunita, diga pra mim: será que a Frora ainda gosta de mim?” A Lua, com zóio de muié maliciosa, riu e eu arremedei um cantadô lá da roça adonde morei: “Lua bunita, num dexe, intão, ela longe de mim. Minha dor num tem fim.” Foi ocê que abandonô eu, fugino com o paiaço do circo, ocê se alembra?

Tudo mundo riu de mim: “Pur quê fugiu c´o paiaço e não c´o dono do circo? Se é pra atirá vantage, miséria poca é bobage.” Eles achava, mor, que se fosse co patrão inté que ocê tinha razão, puis eu, pescadô de alambari, nunca tive nada pra dá, nada pra oferecê, a num sê a minha estera no chão, mortandela cum pão, a rede na varanda, umas compra na quitanda, passeio de barco nas água que era um espeio de eu vê: quem era mais estrela, a estrela ou mecê?

Ocê se alembra de quando, naquela noite, as estrela se confudia c´os pexinhos que sartava, se amando na piracema, bunito que nem cinema? Nói vimo os mais vistoso, os mais assanhado e, intão, bem gostoso e sussegado, se abrecemo, se bejemo. Nóis se viu neles e falemo um pro outro: “Óia, nói doi, nanando pela nas espuma do rio. Pelado e sem frio.” Era tudo o que eu tinha pra dá pra mecê. Mai eu descobri que o paiaço do circo tinha mai do que eu tinha: ele fazia ocê dá risada e, rindo, ocê ficava feliz. Foi o que ocê quis.

Eu, pescadô de cascudo e de manjubinha tamém, achava – ai de mim! – que, mai do que ninguém, eu cum meu amor bastava pra te asatisfazê. Tive vontade de morrê. Agora, mor meu, eu tô sabeno que ocê foi vista longe daqui, numa cidade grande, de gente marvada, lugar que nem rio tem pra sê espeio de ocê se oiá. E eu sube, mor, que o paiaço tá judiando de mecê. Que ocê num dá mai risada, que só tem lágrima escorrendo no rosto pintado de ruge e carmim. Vorte pra mim!

Eu le juro por Sant´antonho, meu padroero, que ninguém, no mundo intero, haverá de fazer mar pra mecê. Vô pescá jaú e dorado, fazê eles bunito e bem assado e montá mesa de nói jantá. Já derrubei dois pé de parmito, já robei rosa e jasmim, já pedi pra Lua santa, na minha saudade tanta: “Lua bunita, limpe dela o ruge e o cargim e traga Frora de vorta pra mim.” Seje calor, seja frio, nói vai se amá na bera do rio.

Quando ocê vortá, vô tá lá esperando na incruziada, numa noite estrelada: no Norte dela, ponhei um leito de açucena; no Sur, um otro de verbena; no Leste, tem copinho de pinga cum limão: n´Oeste, sarsa, sarsinha, açafrão. Tá tudo preparado para mecê. Pois de donde ocê vié, ó minha amada muié, lá vô tá eu pra te esperá. Pro resto da vida, muié querida. Até lá, de saudade fico a rezá: “Lua, Lua, Lua que alumia o camim; traga minha Frora de vorta pra mim.”

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