Sinhora dos Prazer, acuda nóis!

Ai, ai, ai, santinha minha,

ai, que bão que ocê vortô!

Vai trazê Nosso Sinhô?

 

Eu sempre ouvi falá de mecê,

essas coisa de ouvi dizê,

de ouvi sem conhecê.

Eu tava sonso, triste,

até garrava perguntá:

“Será memo que ela existe?

Ou será que me enganaro?”

Então me  alembro que  contaro,

me alembro que sempre falaro

que, certo dia, magoada e cum frio,

ocê dexô nóis abandonado,

sumindo na curva do rio.

E que, carregada por quatro anjo,

por Gabrié e Migué Arcanjo,

ocê se lamentô, toda cheia de ciúme:

“Se me trocaro por Santantonho,

num arrecramo e nem protesto.

Mai procêis acabô o sonho

de sê cidade grande e feliz

daquele jeito que eu quis,

de alegria em cada gesto,

de encanto e de buniteza,

Fiquem co santo casamentero,

isso num causa estranheza;

Mai pro mundo eu vô dizê,

isso doa pra quem doê,

que ocês arrenegaro

Nossa Sinhora dos Prazer,

ocêis ainda hão de vê.”

 

Ai, ai, ai, santinha minha

ai que bão que ocê vortô.

Mecê traiz Nosso Sinhô?

 

Prá falá tuda verdade,

cum franqueza, honestidade,

alguma coisa andava fartando.

Inté pensei fosse castigo

ou arguma coisa comigo:

o rio ficando triste, secando,

o sertão virando mar de cana,

criançada sem pão, sem cama,

o orgulho da gente abalado,

o “Nhô Quim” crucificado,

as rua cum buraco em tuda esquina,

a beleza esmilinguindo,

as flor e os encanto sumindo…

O canto perdeu a rima.

Arguma coisa acontecia

e nói, a gente num sabia.

Ai que bão que ocê vortô.

Trouxe Nosso Sinhô?

 

Me adiscurpe minha santa,

das coisas que vô contá,

me adiscurpe se eu chorá:

mai eu tava desacorçoado,

eu tava desanimado,

já num sabia nem rezá.

Se mecê num embravecê,

nem pensá que sô criança,

vô tê força pra dizê:

eu tava sem esperança.

De santo do céu, eu desconfiava;

em santo já num acreditava,

só sofrimento, saudade e dor:

cadê prazer e amor?

As Nossa Senhora, tudas triste,

dor que no céu num ixiste:

a das Dor, dos Parto, das Mercê;

santinhas só de padecê:

a das sete faca cravada no peito,

a dolorosa nos pé da cruiz,

a sofredora que perdeu Jisuis,

sofrê, sofrê, que num tem jeito.

Tudo saudade, sofrimento e dor.

Cadê a do prazer , cadê a do amor?

 

Ai, ai, ai, santinha minha,

ai que bão que ocê vortô.

C´ocê vorta o Sinhô.

 

Agora, me contaro,

no dia do aniversário,

que mecê veio prá ficá.

Ninguém mais tem que arrecramá:

Nossa Sinhora do Prazer,

padroera nova e querida,

com seus anjo no santuário,

com Jisuis lá no sacrário,

abençoando a nossa vida.

Minha alegria enche a arma,

meu coração se acarma,

é tempo de otra história,

de recuperá a memória,

de começá tudo de novo,

mecê, Jisuis, e nói, o povo.

 

Fico sentindo as benção do céu,

caindo, chuva sobre as colina.

E penso na Noiva, noiva e minina,

catita e faceira, luxenta de novo.

Se já era Noiva tão bela,

agora, quem vai guentá ela?

Deus abençoa nóis de tudo lado,

pra que vorte o casório perfeito:

a noiva bunita, os noivo apaxonado,

a cidade abençoada, num tem mais jeito.

Puis é o que tô veno, minha santinha,

num sonho que encanta e seduiz:

lá nos arto, de braço aberto, o Sinhô Bom Jisuis;

lá no centro, na catedrar, Antonho padroero,

sem ciúme ninhum, casamentero;

lá no Bongue, a Inhala Seca brincando,

e na berada do sarto, com flor desfoiando,

a doçura do amor dos pobre, Rosa de Jesuis,

toda santa, iluminada de luiz.

Vejo as água do rio renascendo,

as pedra do sarto espumando,

as árvore da terra anunciando

o milagre acontecendo.

Pois fartava só a mãe, a mãe santa, encantadora,

mãe dos home, mãe da gente, auxiliadora.

E, intão, ocê vortô, minha santa, minha frô.

 

Pode entrá, fique à vontade, a casa é sua.

Que nóis tudo, em procissão na rua,

pra que ocê nunca mai vá imbora, nem avoe na curva do rio

vamo inventá Ave Maria de agradecê:

“Ave Maria, cheia de graça e prazer,

o Sinhô tá cum mecê;

bendita é ocê entre tuda as otra santa que existe;

e bendito semo nói, fruto de sua vorta, caipira daqui,

bendito fruto que nem Jisuis.

Santa Maria dos Prazer,

mãe de Deus e de tudo

– do rio, das gente, das cana, das colina, dos menino, das menina –

Acuda nói, agora e em tuda as hora, para sempre, Amém.”

(Originalmente publicado na “Tribuna Piracicabana”)

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