A história do pequeno órfão

infantilA Província – quando impressa – abriu espaço também para que leitores relatassem seus “causos”. A história a seguir foi contada por Yeda Maria Stipp Malusá:

Quando eu era menina não havia em casa nem rádio e muito menos televisão e aparelho de som. Era uma vida mais simples, mais ingênua da que levam as crianças de hoje. Minha mãe e minhas irmãs nos revezávamos nos serviços caseiros. Recordo-me que, de vassoura na mão limpando a casa, lavando roupa no tanque ou passando-a no quarto dos fundos, na cozinha junto ao fogão e à pia, nós nos distraiamos cantando.

Eu e minhas irmãs cantávamos as músicas que aprendíamos na escola ou com as amigas da vizinhança que tinham rádio ou vitrola. As modinhas do tempo de moça de minha mãe, que ela cantava, eram muito sentimentais. Entre elas, uma me ficou guardada na memória porque abalava tanto o meu coração de menina que inevitavelmente eu acabava chorando. Chamava-se A Estória do Pequeno Órfão e nunca mais a ouvi em parte alguma, senão na minha casa, quando criança.

Minha irmã mais velha, sabendo que a música me emocionava até as lágrimas, fazia de propósito e punha-se a cantá-la e logo eu caía na choradeira. Então meus irmãos ficavam a caçoar de mim chamando-me de “manteiga derretida” ou “bezerro desmamado”. Eu chorava mais ainda.

Depois cresci, fiquei moça, casei-me e tornei-me mãe de quatro lindas meninas: -O interessante é que elas herdaram o efeito que a música do “pequeno órfão” me causava. Ao ouvi-la, quando eu cantava, os olhos delas logo se enchiam de lágrimas que desciam por suas faces infantis de tal maneira, que eu até achava graça, mas depois, com carinho, as fazia cessar com meus beijos. Depois de moças e casadas, elas de vez em quando pediam para eu cantar a “música triste” que as fazia chorar. Preservando para a “posteridade”, abaixo está a letra da música, faltando a melodia que também era muito tocante.

A Estória do Pequeno Órfão

Debaixo de um sol ardente
De um verão abrasador
Vendia doces na rua
Um pequeno vendedor.

Era um menino aloirado
Que refletia a bondade
E que talvez não tivesse
Sequer dez anos de idade.

Sem pai, sem mãe, sem carinho
O pobrezinho, coitado,
‘Trabalhava o dia inteiro
Para um patrão bem malvado.
Andava de casa em casa
Gritando de vez em quando
“Olha os doces bem fresquinhos
São bons e estão se acabando”
Mas um dia, o pobrezinho
Levou um susto tamanho
Ao ver que tinha perdido
Tudo quanto tinha ganho,

E como, infeliz, soubesse
O que devia esperar
Sentou-se numa calçada
E começou a chorar.

Nisto uma linda menina
De olhos da cor do mar
Com pena do pobrezinho
Foi com ele conversar.
– Por que chora meu menino,
Sentado nesta calçada?
Diga, diga sem temor
Por certo não será nada.
Ó minha boa menina
Eu perdi todo o dinheiro
Que consegui trabalhando
Durante este dia inteiro
E quando chegar em casa …
Mas não faz mal minha amiga
Nem o mais leve remorso
Minha consciência çastiga.
E a pequenina, bondosa,
Que em casa guardado tinha
Dinheiro para comprar
Uma linda bonequinha
Trouxe o dinheiro e lho deu
E pôs-se logo a correr
Sem dar tempo ao pobrezinho
De falar, de agradecer.

 Esse foi inclusive o segundo lugar no Concurso de Causos do projeto Cenas da Cultura Caipira, realizado pelo Sesc Piracicaba, em 1988.

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