Curta e grossa

O Bepe Batista tinha um sítio no bairro de Sertãozinho onde plantou eucaliptos para corte, pois tendo se mudado para a cidade, comprou e mantinha em funcionamento uma pequena lenhadora, ou seja, um depósito de lenha de eucaliptos já cortados e rachados, com uns 50cm de tamanho, mais ou menos, que ele vendia tanto em carrinhos de mola (tração animal) como à granel na própria lenhadora.

Naquele tempo eram pouquíssimos os fogões a gás engarrafado. Havia poucos fogões elétricos. A maioria dos fogões era de lenha mesmo.

Certa vez, como a lenha na cidade estava se acabando, Bepe Batista que era muito vivo chamou seu genro Mário e lhe disse: “Mário, ponhe vinte milreis de gasolina no Possante i vamo buscá lenha no Sertãozinho”.
Mário obedeceu prontamente. Abasteceu o velho caminhão Internacional, colocou um regador de água no radiador e disse: “Bepe, to pronto. Já ponhei a gasoza i a água. Os machado já tão na carroceria junta das corda”.

Mário subiu na cabine do caminhão, Bepe deu na manivela e o Possante começou a tremer todo. Bepe montou na boleia ao lado de Mário e foram para o sítio Sertãozinho. Lá chegando, entraram com o caminhão nas ruas de eucaliptos cortados e foi aí que um imprevisto aconteceu: uma lasca de eucalipto furou um dos pneus carecas. Aliás, todos os pneus estavam carecas..

Nas estradas de terra era difícil furar um pneu. Mário, quando percebeu o pneu se esvaziando, soltou uma blasfêmia do tamanho de um bonde e exclamou: “Bepe bendito, tamo perdido! Furou um pneu i nóis num temo istepe prá tocá. Nóis num vorta mais hoje pra cidade”.

Mas o Bepe, que era um homem sabido e que costumava dizer que não dormia com os olhos dos outros, foi logo dizendo: “Chega de xingamento! Carma rapais, carma! O dia ta intero ainda, dexa eu pensá um poco”.

Bepe Batista desceu do caminhão, foi até a parte traseira da carroceria, agachou-se, tirou a lasca de eucalipto do pneu, soltou um “mardito” meio espremido entre os dentes, deu uma cusparada amarela de sarro do cigarrão paieiro que costumava fumar, mirou o pneu detidamente e foi logo dizendo: “Já sei. Vô quebrá o seu gaio. Ispere só um poco”.

Resmungando, Mário’ andava de cá para lá, sempre por perto do caminhão. Já o velho Batista, que era matreiro, saiu andando calmamente na direção dos eucaliptos e foi se dirigindo pras bandas dum roçado novo com muitas ramagens rasteiras. Não demorou muito e o Bepe Batista vinha voltando todo sorridente com uma enorme moranga madura às costas. Chegou até perto do caminhão e disse: “Mário, num falei procê num disisperá? Quando eu tava oiando o pneu, deu um istôro na minha cabeça i eu desci pra roça”.

Sem entender a conversa do Bepe, Mário retrucou: “Mais essa agora! Nóis temo de carregá a moranga nas costas até em casa?”.

“Não – respondeu Bepe Batista – pegue a moranga, ponha perto da roda, ponha o macaco no eixo, tire o pneu furado, pegue minha faca na cava do colete (ele andava de colete preto todo santo dia), marque a artura dos furos do aro da moranga, infie a faca devagarinho pro furo num ficá muito largo, ponhe a moranga no lugar do pneu, num aperte muito o parafuso. Isso mesmo. Agora vá rodando com jeito até no borracheiro perto da Iscola Agrica, mande consertá o pneu i a câmara i venha me buscá que eu vou deixá a lenha impiada na estrada… ”

Contam que Mário veio rodando para a cidade com a moranga na roda, consertou o pneu e a câmara avariada, voltou para o Sertãozinho para apanhar Bepe Batista e trouxeram de lá um caminhão de lenha de eucalipto.
Será que o Bepe Batista ao se encaminhar para a roça encontrou a Fada Madrinha da Gata Borralheira? Aquela que transformou uma abóbora em carruagem? Pode até ser …

Menção Honrosa no Concurso de Causos do Projeto Cenas da Cultura Caipira, SESC Piracicaba, 1988

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