A Inhala Seca: pavor de todas as gerações

O texto abaixo foi publicado em janeiro de 1988 no semanário impresso A Província. Preservamos datas, idades, comentários e gramática originais do texto.

inhala

— A Inhala Seca vai te pegar.

A voz aguda de homem apavorava as moças que iam trabalhar na fábrica de tecidos e atravessavam o rio Piracicaba pela antiga ponte da Sorocabana. Elas se arrepiavam. A voz as fazia estremecer e elas corriam o mais que podiam, desesperadas.

Ninguém sabe quem era Inhala Seca  que apavorou muita gente anos atrás, uma espécie de Frankeinstein que acabou virando lenda contada sempre com uma dose de horror. O Mirante era um matagal só na época. Por isso, todos os dias de manhãzinha dezenas de moças que moravam na Vila Rezende enfrentavam um verdadeiro desafio ao passarem para o outro lado da cidade. Reuniam-se próximo à ponte para passarem juntas e chegarem até a fábrica. Eram moças pobres, que traziam debaixo dos braços a marmita.

— Não se sabe quem fazia o teatro. Mas a voz era ouvida claramente e vinha do lado do reservatório de água – conta o folclorista João Chiarini. Tempos depois, a voz passou a ser ouvida nas Ilhas dos Amores, situada do lado direito da ponte do Mirante, sentido cidade Vila Rezende. Da antiga ponte, saia uma escadinha de tábua que dava acesso à Ilha, levada por uma das enchentes do rio.

A verdade é que, cada um contava a história da Inhala Seca, acrescentava detalhes de acordo com a imaginação. Há quem diga que Inhala Seca teria sido uma “esquálida e desdentada velha habitante das matas sombrias, onde mantinha seu lôbrego casebre de sapê”. Sempre vestida de roupa escura e os cabelos escondidos por um lenço negro, tinha o rosto marcado pelas rugas, olhos pequenos e fulvos separados por um nariz adunco. “Era a representante de primeira de todas as forças do mal”.

A Inhala Seca que assustava criança, moços e velhos parecia ser uma espécie de bicho-papão. As pessoas tremiam de medo só de ouvi-la mas nunca a viram. A lenda que Leandro Guerrini conta diz que os gritos eram ouvidos do morro do Enxofre. Segundo João Chiarini, antigos pescadores como João Picapau, Antonio Pensi, já falecidos, contavam que ao chegarem na corredeira do Enxofre, onde os barcos podiam ser desligados, desviavam para poderem passar mais rápido o local. Até a Folia do Divino chegou a ser suspensa, e a aglomeração dos irmãos do Divino, feita na saia do morro do Enxofre (na época não havia a estrada que passa ao lado e a pedreira ia até próximo às margens do rio), foi transferida para outro local.

Por volta de 1933, como afirma Chiarini, houve um piquinique beneficente no Jardim da Ponte, onde atualmente está o hotel Beira Rio e o Parque Infantil. A promoção iria arrecadar renda para a Santa Casa de Misericórdia. Ali era um bosque, com muitas árvores. Os organizadores vendiam ingressos, sorvetes, pamonha, garapa, quando, de repente, ouviram gritos. Foi uma correria só. Os gritos de Inhala Seca espantaram todo mundo e acabou com a festa.

Inhala Seca era temida. Num carnaval, o povo confundiu o morador Eneas Morão, com ela. “Ele era um engenheiro leigo que fez vários manifestos na época ” — explica Chiarini. “Tudo o que ele falou, escreveu” — acrescenta. Uma das sugestões de Morão era a construção de uma ponte ligando a rua Moraes Barros, ali onde é A Porta Larga, à rua José Pinto de Almeida.

Magro, rosto ossudo, chapéu de jornal da cabeça, montado num cavalo magro que dava dó, Morão desfilou pelas ruas no corso. Estava vestido de Napoleão. Na camisa, pendurou tampinhas coloridas de garrafas de guaranás, lembrando as medalhas.

Era uma figura folclórica e, por farra, Eneas Morão concorreu às eleições para deputado. Por pouco não ganha de João Sampaio, genro de Prudente de Moraes, o primeiro presidente civil da República. Por onde passava, Eneas Morão trajado a Ia Napoleão, arrancava risos e aplausos, até que alguém resolveu sugerir que ele poderia ser o Inhala Seca. Foi uma confusão dos diabos e Eneas Morão não participou mais do carnaval.

Outras Lendas 

O almanaque de Piracicaba, de 1900, conta a lenda de “A Inhala Seca”. Um dia um preto velho foi cortar varas de fazer cerca lá perto do Enxofre, onde havia um mato cerrado. Cortava assoviando para espantar as tristezas quando ouviu um barulho perto dele. Era ela: Inhala Seca. Ela estava lá, encostada ao tronco de uma grande figueira e olhando para o velho com uns olhos que faziam arrepiar os cabelos. Ele agarrou a correr e só parou quando saiu na estrada.

Segundo a Lenda contada pelo Almanaque, a Inhala era uma mulher natural daqui mesmo de Piracicaba que no fim da vida ficou tísica. Depois de anos que havia morrido, os coveiros foram fazer outra sepultura no lugar da sua e acharam o corpo inteirinho, sem faltar um fio de cabelo sequer. “A terra não quis comer” — garantem os contadores de “causos”.

Inhala teria sido uma mulher má. Os coveiros tornaram a encher a sua sepultura, mas passados cinco anos, abriram novamente e lá estava o corpo intacto, conservado. Eles, então, tiraram o corpo da cova, deixando-o encostado na parede do cemitério. Algumas pessoas mandaram construir uma capelinha ali perto e levaram o corpo seco de Inhala para lá. Muita gente fazia romaria à capelinha para ver a nova santa. Acabou ganhando fama de milagrosa. Só que um dia a santa sumiu. Diziam que ela havia fugido da capela com suas próprias pernas, e começou a assustar todo mundo com seus gritos.

Outros contadores diziam o seguinte: Inhala é um simples apelido de uma mulher de boa família que enlouqueceu internando-se no mato que ficava ali pelas bandas Enxofre. Acabou morando lá. A noite ela ia até a estrada já que o movimento era menor e dificilmente encontraria com alguém. Mas outros contadores dizem “alguns viajantes viram a Inhala assando animais vivos nas fogueiras. E afirmam: “Pobre daquele que tivesse a desventura de deparar com Inhala. O brilho amarelado dos seus olhos lança fluídos malévolos que levavam a vítima à loucura ou, então, as carregava de um quebranto netado. O quebranto enchia o corpo de dores e somente os mais destacados benzedores podiam debelar o insidioso mal”.

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