O cachorro que virou assombração no velório do sítio

‘Num sítio localizado pelos lados de Charqueada, aconteceu um velório. Naquelas bandas, as pessoas velavam seus mortos em suas próprias casas.

Como o acesso à cidade era difícil, o defunto era colocado sobre uma mesa, sem caixão, até a chegada da funerária, às vezes só na hora do enterro.

Em certo velório a mesa da casa era muito pequena. Tiraram então uma folha da porta para aumentar o tamanho. Cobriram tudo com um lençol e colocaram o cadáver do morto em cima. Como já era noite, ficaram velando o corpo até a manhã seguinte, quando chegaria o caixão vindo da cidade.

Os compadres iam chegando aos poucos. A luz das lamparinas, conversa vai, conversa vem, os colonos da colônia de cima e os da colônia de baixo se revezavam esperando o amanhecer.

Um deles veio com um cachorro. Chamava-se Zé. O cão não largava seu dono nem por um momento. E o papo ia rolando até que, muito tarde, “seo Zé” resolveu ir dormir em casa, ficando de voltar de manhã bem cedinho para o enterro.

Sem que ninguém percebesse, enquanto o papo rolava, o cachorro se meteu debaixo da mesa onde ficava o defundo e adormeceu tranquilamente. “Bom, pra meceis até amanhã!”, disse “seo Zé” preparando-se para partir. Ao ouvir a voz do dono, o cachorro acordou, espreguiçou-se e foi saindo devagar debaixo da mesa. Com isso, o lençol que cobria o defunto escorregou devagar.

Foi uma correria para ver quem saia primeiro de dentro sala. Pensaram que o defunto estava se mexendo. Bem, só então perceberam o cachorro e entenderam tudo. Voltaram a velar o defunto e todo mundo riu muito. Virou gozação o velório.

Nota: Este ganhou Menção Honrosa em curso de Causos do Projeto da Cultura Caipira, SESC Piracicaba, 1988.

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