O dia em que Jânio levou embora o capote de Leopoldo Dedini e nunca mais devolveu

Em vez de caviar e champanha, Jânio quis arroz e feijão.

Já que estamos registrando o que houve de festa e prazeres nos chamados “Anos Dourados”, é bom lembrar  que “causos” são, mais do que casos ocorridos, maneiras e formas de contá-los. Por exemplo: o que aconteceu na mansão de Mário Dedini, então na rua Santo Antônio, com a chegada de Jânio Quadros, fortíssimo e praticamente eleito candidato à Presidência da República, poderia ser narrado de algumas maneiras diferentes, mas o fato sendo o mesmo. Um caso de Polícia, de embriaguez e de furto? Um caso de desrespeito? Ou algo que nasceu para se tornar um “causo”, como a realidade que se torna lenda, a lenda que é maior do que a ocorrência?

Mas aconteceu. Em sua vasta e belíssima mansão, Mário Dedini recebeu Jânio Quadros, com o qual, aliás, ele não simpatizava. “Seo” Mário não se manifestava partidariamente, mas tinha preferências e ojerizas. Ele não gostava de Jânio, mas recebeu-o com o que havia de mais generoso em sua casa e de convidando “la crême de la crême” de Piracicaba. Jânio atrasou-se muito. E os convidados, todos vestidos com requinte, já incomodados com a demora do grande líder populista. E com fome. E, na cozinha, todo o exército da gastronomia preocupado com assados e acepipes.

Então, Jânio Quadros chegou. Teatral. Parecia um maluco, até hoje ninguém sabe se realmente o era, se fingia. Para quase todos que o viram, Jânio chegara completamente embriagado, que era dado às suas biritas exageradas, incontroláveis, incontroladas. Quando se preparam aperitivos, quando se anunciaram saudações, Jânio Quadros foi drástico: “Não quero nada. Estou com gripe. Preciso dormir.”  Mário Dedini não soube o que fazer senão mandar encaminhar Jânio Quadros ao quarto que lhe fora reservado, para decepção e indignação de todos os convidados.

Mas não parou aí. Quando se perguntou a Jânio, se ele se alimentaria no quarto, se queria que lhe preparassem pratos do banquete que seria servido, o populista Jânio Quadros respondeu: “Quero comer arroz com feijão.”  Mas onde, naquele banquete, Mário e Ottilia Dedini iriam arranjar arroz e feijão, se havia champanha e caviar para substituir o humilde tutuzinho de cada dia? A saída foi bater à porta do vizinho de frente, o dr.Toledo Piza, dentista. Ele tinha arroz e feijão.

E não foi só. Tiritando de frio, Jânio Quadros queria agasalhos. E Leopoldo Dedini, morando quase ao lado – na rua 13 de maio – usou de todo o seu talento para tratar com político, mesmo não gostando dele: mandou buscar um belíssimo capote italiano, que ele próprio trouxera da Itália e pelo qual tinha carinho especial. E o entregou a Jânio, para protege-lo do frio, não se sabe se da bebedeira, se de gripe mesmo. O fato é que Jânio Quadro nunca mais devolveu o capote italiano de Leopoldo Dedini.

E Leopoldo, até o fim da vida, quando lhe falavam de Jânio Quadros, resmungava: “Vá, vá, aquele… Ele levou embora meu capote, nunca mais devolveu.” Depois da renúncia de Jânio, Leopoldo Dedini ficou ainda mais infeliz: “Se eu soubesse, eu teria deixado ele morrer de frio e de bebedeira aqui mesmo em Piracicaba…”

(Na foto, do arquivo de Mauro Vianna, Jânio Quadros entre Mário Dedini e Leopoldo Dedini. E com o capote italiano que ele nunca mais devolveu.)

1 comentário

  1. Wholesale jewelry em 30/08/2012 às 00:21

    bom blog. Eu amo o seu post. Continue a fazer o bem.

    Wholesale jewelry

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