Quando Ferraz deixou de ser Sebastião apesar da insistência de Losso

 Áureos e bons tempos aqueles, quando adversários e competidores civilizados sabiam conviver com a doce hipocrisia tão própria da civilização. Conheci Sebastião Ferraz e Losso Netto – aquele no “Diário de Piracicaba”; este no “Jornal de Piracicaba” – ainda na adolescência, a minha.  Meus primeiros escritos foram publicados por Losso Neto, que ele chamou de minhas “primícias literárias”, fui até “ouvinte de revisor” no velho JP.. Mas a minha atividade jornalística começou no Diário, com S.Ferraz.

Losso Neto e Sebastião Ferraz eram como que antípodas entre si, um se revelando o contrário do outro. Losso era cavalheiro; Ferraz, um extrovertido indiscreto; Losso, rotariano; Ferraz, do Lions, leão; Losso, da UDN e fanático por Jânio Quadros: Ferraz, apaixonado por Adhemar de Barros, ligado ao PSP adhemarista; Losso, médico por formação; Ferraz, autodidata; Losso, com raízes na Igreja Católica; Ferraz, maçom. Conforme o posicionamento do Diário, o Jornal se punha em oposição. E vice-versa.

Sebastião Ferraz sempre foi Sebastião Ferraz e assim assinou até que, de repente, surgiu um homônimo, um certo Sebastião Ferraz que passou a dar trabalho a todo mundo, incluindo a Polícia. O homem, o Sebastião Ferraz que caía pelas ruas, era um pobre cidadão do povo, alcoólatra, desocupado e, pelo que passou a demonstrar, baderneiro.

Um belo dia – acho que mais feio do que belo – Ditinho Linotipista, dedilhando um texto de nota policial, gritou das oficinas: “Ei, pessoal, prenderam o nosso chefe. Sebastião Ferraz estava bêbado fazendo arruaça num boteco.” Ninguém deu importância, Ditinho era um piadista. Mas, na manhã seguinte, Sebastião Ferraz, o jornalista, entrou na redação com a cara enfezada: “Mas que coisa chata. O meu jornal confundindo o meu nome com o de um arruaceiro qualquer. Que história é essa de Sebastião Ferraz ter sido preso?” Até se conferir na Delegacia, mostrar o Boletim de Ocorrência e, finalmente, o “chefe” compreender que havia um homônimo seu arruaceiro, foi difícil. Mas passou.

Só que não durou mais de uma semana. Pois, alguns dias depois, o tal do Sebastião Ferraz era preso novamente: bêbedo,em outro  boteco, fazendo arruaça. E foi preso novamente, sendo registro de boletim de ocorrência e personagem de notas policiais. Como fazer?  Evitar a notícia não seria honesto, continuar informando que “Sebastião Ferraz foi preso outra vez” ficava cada vez mais chato. E, aqui entre nós, enlouquecia o Sebastião Ferraz jornalista, que era um vaidoso irrecuperável.

Então, ele próprio, então diretor do Diário, decidiu: “A partir de agora, meu nome sairá apenas como S.Ferraz, sem Sebastião. Para não confundir com esse arruaceiro que anda por aí.”  E assim foi: passamos a citar S.Ferraz, no cabeçalho estava S.Ferraz, ele escrevia artigos como S.Ferraz, parecia que a paz voltara a reinar no universo jornalístico. Foi quando Ditinho Linotipista voltou à redação:

– Ninguém falou para o Jornal de Piracicaba e para o doutor Losso que, agora, não é mais Sebastião Ferraz?  Ele continua publicando o nome dos dois: do nosso chefe e do arruaceiro que entra e sai da cadeia.

Losso Neto, até os últimos tempos, fez questão, disfarçando o doce prazer da provocação, em chamar S.Ferraz, seu confrade, de Sebastião Ferraz. E de noticiar que Sebastião Ferraz , o outro, continuava fazendo arruaças e sendo preso pela Polícia. E S.Ferraz nunca o perdoou.

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