Ripolianas (16)

Bendito os céus por, não me tendo tornado um passadista, ser um homem alimentado por fiapos, retalhos, colchas de saudade, de intensos pedaços de saudade. De pessoas, de lugares, de acontecimentos. E Romeu Ítalo Rípoli, bem mais velho do que eu, continua sendo essa presença marcante em minha vida, como se sua ausência o tornasse cada vez mais presente em meus dias. Pois vejo coisas, situações – especialmente na política e na vida do Nhô Quim – e, quase de imediato, penso no Rípoli: “o que ele faria?”

São incontáveis as pessoas que me marcaram a vida, com quem aprendi, de quem bebi vivências e lições de sabedoria. Rípoli – o polêmico, o contestado, o controvertido, o bem-amado e mal-amado Rípoli – foi um deles. Com Geraldo Carvalhaes Bastos, também já idoso, ele era presença cotidiana na redação de O DIÁRIO, como se combinassem e marcassem ponto: todos os dias, exceção aos sábados, às 10h. da manhã.

Rípoli era conhecido por ser homem de difícil relacionamento nos negócios, implacável, detalhista em tudo que dissesse respeito a dinheiro. Em negócios, uns perdem, outros ganham. Os que, com Rípoli, ganhavam e enriqueciam, admiravam-no, eram-lhe gratos. Os que perdiam se transformavam em inimigos, abominando-o. No entanto, Rípoli fazia, em silêncio e no anonimato, generosidades que poucos conheciam. Detestava dar esmolas, mas ajudava, sem que ninguém soubesse, instituições beneficentes.

Certa manhã, Geraldo Bastos apareceu na redação com dois talões de rifas para ajudar a reforma do Seminário Diocesano, onde se realizavam Cursilhos de Cristandade. O objetivo era facilitar a ida de pessoas pobres, que não pudessem pagar. E me encarregou de vender os talões, para meu desespero e angústia. Para quem vender, dez números em cada talão? Resolvi que eu mesmo ficaria com um e, assim que vi o Rípoli chegar, lhe ofereci o outro. Ele fez um escândalo: “E lá vou eu ajudar essa besteirada que mistura religião no meio? Em vez de fazer cursilhos, tem que botar essa gente para trabalhar.” E xingou e berrou e protestou. Mas insisti.

O fato é que, antes de ir-se embora, o Rípoli abriu a carteira: “Quanto custa essa porcaria?” Nem me lembro o custo de cada talão, mas Rípoli, depois de tugir e mugir, pagou. E, quando lhe dei o talão, ele o jogou de volta sobre minha escrivaninha: “E você acha que eu vou levar comigo essa droga? Fique pra você.” E saiu, provocando os redatores, brincando com um, xingando o outro. Anotei o nome dele no talão, guardei-o numa gaveta.

Passaram-se os dias, o Geraldo Bastos fez o sorteio do Fusca, todos os talões tinham sido vendidos, a rifa fora um sucesso. Mas o ganhador não aparecia. Então, numa das manhãs, Rípoli presente, o Geraldo puxou do bolso uma lista e me falou: “Olha, o número sorteado está num dos dois talões que eu lhe deixei para vender.” Ou seja: o Fusca saíra ou para o meu ou para o talão do Rípoli. Fui conferir, procurando, numa das gavetas, os malditos talões de que eu me esquecera. Até que achei. Conferimos. E lá estava: o número sorteado era o do talão adquirido pelo Rípoli.

Quando fomos cumprimentá-lo, e lhe devolvi o talão, ele me falou: “Você é mesmo um turquinho burro, não? Eu não lhe dei o talão? Se eu lhe dei, o Fusca é seu, turco burro.” Discordei, apresentei argumentos, não era justo aquilo. E ele: “Não me encha o saco com essa sua mania de justo ou de injusto. Se eu lhe dei o talão, é seu. Sou um homem de palavra e não volto atrás.”

E o Fusca que deveria ser do Rípoli ficou meu. Ele ganhou e não levou. E, então, vendi o carro  de imediato, aliviado por poder fazer algum dinheiro e  pagar algumas das proverbiais dívidas de O DIÁRIO, jornal que era massacrado pelo boicote comercial dos apaniguados da ditadura. Esse era o Rípoli, que a revolução tentou punir por corrupção, arrependendo-se, voltando atrás e pedindo desculpas através do General Resstel: a declaração de imposto de renda de Rípoli tinha falhas de apenas alguns centavos.

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