Ripolianas (5) – O Governador pediu silêncio

Era 1974. Quem imaginaria governantes precisando do silêncio de Romeu Italo Rípoli? Aconteceu. Naquele complicado ano – Geisel no poder – até o futebol tornara-se questão de “segurança nacional”. O “milagre brasileiro” já se esfumaçara, ia-se esgotando o governo militar e o povo, inquieto. No futebol – finda a “era Pelé” – o Brasil chegara a um humilhante quarto lugar na Copa do Mundo da Alemanha. O governo começava a perder as rédeas. O MDB, nas eleições daquele ano, dera uma sova nos governistas, refletindo a insatisfação das massas.

Em São Paulo, outro problema sério: o Corinthians há 20 anos não vencia um campeonato. Pesquisas diziam de uma explosão popular se outra derrota acontecesse. A nação corintiana estava desesperada e isso refletia até no trabalho. Em dezembro daquele ano, a final do campeonato paulista seria a mais explosiva: entre Corinthians e Palmeiras. Foi quando o silêncio de Rípoli se tornou mais importante.

Os meios políticos e esportivos sabiam: havia-se negociado para o Palmeiras “facilitar” o jogo e o Corinthians ser campeão. Em nome da “segurança nacional”, diante de rebeldias que alarmavam o governo Geisel. Paulo Egydio Martins, de quem eu me tornara próximo, era governador de São Paulo. Na Assembléia Legislativa, o líder era Nabi Abi Chedid, deputado e também poderoso mandante da Federação Paulista de Futebol. Tudo se acertou: Palmeiras “entregaria” o jogo; Corinthians, campeão – alegria do povo, algum tempo de paz. Mas…E Rípoli?

Pois se Rípoli, presidente do XV, não concordasse e denunciasse o acordo, o escândalo seria nacional, pão de ló e prato cheio para a oposição. Recebi, então, em telefonema, um pedido insólito de Paulo Egydio: convidar o Rípoli para um encontro sigiloso na ala privativa do Palácio Bandeirantes. Não falou do motivo, não perguntei. Rípoli, na sua vaidade imensa, ficou eufórico, delirou. Quase precisei amordaçá-lo para ele não trombetear na esquina do Banco do Brasil: “O Governador tá implorando pra falá cumigo!”

E lá nos fomos. Na ala privativa, Paulo Egydio – mais sorridente simpático do que nunca – nos esperava com gentilezas. Abraçou o Rípoli, elogiou-o. Percebia-se a chantagem emocional. Aparentando tranqüilidade, Nabi Chedid sorria, a raposa cuidando do galinheiro. Conversa mole daqui, de lá, Rípoli foi informado: “O Corinthians, por questão de segurança nacional, tem que ser campeão.” Paulo Egydio pediu a compreensão e o silêncio do presidente do XV, crítico implacável da Federação.

Rípoli tirou o canivete, picou o fumo, enrolou o cigarrinho de palha. Então, referindo-se ao Nabi e a mim, perguntou : “Esses dois turcos estão de acordo?” Meio com vergonha, concordei. Nabi também, mas sem aparentar vergonha. Rípoli pediu ficássemos em pé, o governador à frente. Ficamos: Nabi e eu, Rípoli no meio. Então, ele pediu Nabi e eu erguêssemos os braços. Erguemos. Rípoli segurou-os em forma de cruz, falou: “Tudo bem. Mas o governador é testemunha. Estou aqui como Cristo na cruz: entre dois ladrões!”

Foi inútil o silêncio do Rípoli. O Corinthians perdeu. E eu suei sangue para impedir o Rípoli de enviar, ao governador e ao Nabi, um telegrama simples: “O roubo não compensa.”

A série denominada Ripolianas é republicada para constar dos  arquivos de A Província.com.

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