Ripolianas* (8)

Jovens jornalistas, quando o XV está em dificuldades, perguntam-me coisas de remexer fundos de baú, tumbas e sarcófagos: “O que o Rípoli faria para o XV vencer esse jogo decisivo?” Entendo a insinuação maliciosa. Na verdade, os moços querem saber quais malandragens, recursos – limpos ou sujos – o Ripoli usaria em favor do XV. Por ter conhecido a maquiavélica alma ripoliana, suspiro: “E o que ele não faria?”

De tudo, um pouco. Ou tudo de tudo. Há que se considerar o ritual ripoliano, a encenação. Primeiro, ele às redações de jornais, conversar com os donos. Mostraria revolta, indignação: “A Federação quer roubar o XV, está tudo armado. Escalou um juiz ladrão, bandido.” Os donos fingíamos acreditar, chamávamos os redatores esportivos – “ouçam a denúncia do Rípoli, o XV vai ser prejudicado” – e, no dia seguinte, saía no alto da página de esportes: “Rípoli denuncia: juiz ladrão vai roubar o XV.”

De minha parte, em “O Diário”, eu mandava, direto, o Rípoli caçar sapo e dava a ordem rápida à redação: “Nem precisam ouvir o Rípoli. Abram a manchete de sempre: juiz irá roubar o XV.” Pois o filme nunca mudava. E, então, Rípoli pitaria o cigarrinho de palha, queimando tapete e sofá, poluindo a sala , preço do meu sossego. No dia seguinte, a cidade faria passeata contra juiz, federação, “a pouca vergonha do futebol”, neurose incurável do dr. Rípoli.

Agitando a imprensa, convocando clubes de serviço, igrejas, escolas de samba, Rípoli obtinha aval para – então, com mais segurança – arquitetar suas malandragens. Que davam certo. E para as quais todos fechávamos os olhos. Se era para o bem do XV, que mal havia? Em futebol e política, ó jovens destes tempos, sempre valeu tudo. Até comprar pastores de seitas.

Segundo passo: Rípoli iria até a Mausa, entrando na sala do Leopoldo Dedini sem pedir licença: “Preciso de cem contos.” Parecia número esotérico: suborno e outros tipos de corrupção custavam cem contos. Leopoldo sabia disso. Se Rípoli pedira cem contos, era coisa com juiz, bandeirinha e time adversário. Leopoldo gritaria: “Nunca! Cem contos eu não dou, o que você pensa que eu sou?” Assopraria, fingiria braveza: “Cem contos eu não dou. Leve duzentos.” Dando cem, passaria por cúmplice do Rípoli; dando duzentos, seria benfeitor.

Daí, os taxistas. Rípoli era amigo de quase todos eles, amantes do XV. Então – num jogo decisivo – o Rípoli fingiria passear pelo jardim, pediria, a um ou dois taxistas, o favor de levar um recado à Ruth, na zona: na noite anterior ao jogo, ela deveria mandar umas 15 ou 20 moças para recepcionar os jogadores adversários. Quinzista fervorosa, Ruth despacharia umas trinta. Sem cobrar nada.

No Hotel Regina, cada jogador inimigo receberia brindes do Babico Carmignani: uns 50 corotes de pinga, entregues pelas moças da Ruth. Do Vosso Pão – colaborando com o XV – dona Augusta enviaria salgadinhos com arsênico… Não, arsênico, não, dona Augusta não faria isso: com purgante, acho que sim.

Por último, D.Aníger. Após ter feito o cursilho, Rípoli levava a “Imitação de Cristo” no bolso, D.Aníger o estimava. Como reforço, Rípoli pediria uma benção especial. Uma, não: duas. Explicaria: “Uma a favor do XV; outra contra o adversário.” Indeciso, D.Aníger perguntaria: ” É contra a Ponte Preta?” Em não sendo, chamaria o padre especialista: “Padre Jorge, meu filho. Atenda o Rípoli. Ele é um pecador, mas a causa é boa.”

O XV não perderia. Pois – se tudo falhasse – restaria o golpe da geladeira. Mas essa é outra história.

*A série denominada Ripolianas é republicada para constar dos arquivos de A Província.com

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