Ripolianas (1)

Há algum tempo, andei contando coisas que vi e vivi ao lado de Romeu Italo Rípoli, uma das mais fascinantes personalidades piracicabanas nas últimas décadas. Polêmico, controvertido, amado e odiado, Rípoli tornou-se símbolo da saga do E.C.XV de Novembro. Ele e o “Nhô Quim” pareciam uma só entidade. Falar em um era pensar no outro.

À medida em que fui narrando lembranças – a que dei nome de “Ripolianas” – dei-me conta, pela reação dos leitores, que Romeu Italo Rípoli era, na verdade, uma fonte inesgotável de “causos”, fonte primária dele próprio como criatura folclórica. O Brasil falava dele como se Rípoli fosse herói de todos.

De uma certa forma, eu me tornara parte da explosão vulcânica que Rípoli lançava por onde passasse, onde estivesse. Pois, nos anos 1970, fui responsável – envaidecendo-me, ainda, por isso – pelo retorno do Rípoli à presidência do XV. Doente, abatido por injustiças políticas cometidas pelo governo militar, Rípoli entrara em grave depressão. E o XV agonizava. Eram, então, dois agonizantes. Por que não reuni-los, XV e Rípoli, a esperança de que um salvasse o outro? Rípoli voltou, aceitou o desafio. Salvaram-se, ele e o XV se salvaram. E eu perdi o sossego.

Na verdade, Rípoli deu-se o direito de impor-me ordens, de exigir, de tratar-me como se eu fosse filho mais velho, um irmão por afinidade do Caetano e da Beth. Ele não pedia, ordenava; não solicitava, exigia. Foi assim quando inventou que Joãozinho Paulista, um perna-de-pau, era o “melhor jogador do Brasil, um novo Pelé.” Mais ainda: “melhor que Pelé”. Rípoli queria vender o perneta para equilibrar as finanças do XV.

O interesse veio de Maceió, já contei essa história, retomo todas as “Ripolianas”, entregando-as, agora, às asas da internet. E lá nos fomos a Maceió. Ou melhor: ele me obrigou a ir com ele. E Maceió estava em festa: “Joãozinho Paulista, o novo Pelé, vai chegar.” Até Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”, estava feliz com a grande conquista. Tive medo: e se os alagoanos descobrissem a farsa? E a “peixeira” alagoana, tão famosa quanto a sergipana?

Feito o negócio, apressei-o a voltarmos a Piracicaba, o medo de ser linchado. Estávamos a três dias do revéillon. Então, o início do desastre: Rípoli não marcara o vôo de retorno. Não havia mais passagens. Fim de ano, céus alagoanos entupidos de aviões indo e voltando. Começou a via-crucis: de Maceió, a Salvador; de Salvador a Belo Horizonte; de Belô a Goiânia, indo e vindo. Em Goiás, Rípoli se lembrou: “Eu tenho uma sobrinha em Brasília. A Célia.” E enfatizou: “Ele é casada com um cientista da ESALQ, de nome alemão.” E lá ia, eu, saber de que Célia e que nome alemão ela tinha?

Ele começou a brigar comigo: “Ela é Célia João, de Piracicaba, você conhece. E conhece o marido dela, turco burro.” Seria – pensei eu – a Célia, irmã da Sônia João, a belíssima Sônia João? “É ela mesmo, a Célia, irmã da Sônia, casada com o alemão.” Ora, bolas: a Célia Blumenschein, mãe do André, amigo dos meus filhos. Mas e o endereço?

Lá se vai Rípoli ao telefone, querendo saber, em Piracicaba, o número da Sônia João para saber, dela, o telefone da Célia João Blumenshein. E a telefonista: “Sônia João do quê, meu senhor?” Rípoli: “Sônia João…” E a telefonista: “Mas Sônia João de quê?” Rípoli: “Sônia João de nada, só Sônia João.” E a telefonista: “Mas não pode ser apenas Sônia João, tem que haver mais algo além de Sônia João.” E Rípoli, enfim: “Ela é Sônia João, só João de João, não tem João de Mais nada, só Sônia João, sua burra.”

No final, conseguimos chegar, em Brasília, à casa da Célia. E, de lá, num teco-teco chegamos a Ribeirão Preto. E, de automóvel, a Piracicaba, já era revéillon. Rípoli, chupando o cigarro de palha, exultava: “Mas que eu vendi o João Paulista, lá isso vendi, não?”

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1 comentário

  1. joao delvage em 04/01/2017 às 10:50

    Piolim ou Joãozinho Paulista era lavador no posto teatro. Magérrimo e desdentado, alto, ninguém imaginava, a não ser ele mesmo e o Rípoli, que uma figura desengonçada daquela pudesse se tornar o jogador “famoso” que se tornou. Ripoli foi até bom marqueteiro.

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