Tesouro entrerrado na mata da Baronesa de Rezende (I)

Florindo Batista de Lara era um mulato alto, descendente de escravos dos condes de Lara, simpático, conversador, entendido de política e dono de invejável memória.

Em uma cálida noite piracicabana de 1934, sentados em um banco ao lado do coreto do velho jardim, Florindo contou o caso a seguir a alguns amigos, entre os quais, Dr. Paulo Nogueira de Camargo, que em 1965 o registrou em um magistral conto publicado no nº I da Revista de Estudos Piracicabanos (Imprensa Oficial do Município). Com a permissão do mesmo, A PROVÍNCIA, recontou o caso resumidamente:

Florindo era oficial de alfaiate em um salão da rua Boa Morte. Ali trabalhava também o Ditinho, que costumava, todas as tardes, ir cortar capim nas imediações do mato que havia na entrada da chácara da Baroneza de Rezende.

Certa tarde, Ditinho de lá voltou em desabalada carreira, chegando transfigurado à alfaiataria, onde a custo relatou o que ocorrera. O pobre negrinho vira uma senhora elegantíssima, toda vestida de preto e com o rosto recoberto por um véu, saindo da mata. Surpreso, quis desculpar-se por ali estar sem permissão, quando repentinamente a dama desapareceu diante de seus olhos. Profundamente emocionado, Ditinho não mais se restabeleceu do choque, caiu doente e dias depois morreu.

Passados alguns meses, Florindo sonhou com a misteriosa dama que lhe falou: “Sou Laura de Moraes, viúva de Clodomiro Santiago. Por motivos de família, enterrei, ao pé de um jequitibá, no mato do Barão de Rezende, o meu tesouro … ”

Florindo viu-se então acompanhando-a até àquele trecho de mata virgem, tendo adentrado na mesma por um sinuoso carreador. Chegaram por fim a um gigantesco jequitibá, com suas raízes enormes penetrando a terra. A um sinal da misteriosa mulher, aflorou à superfície, entre duas grandes raízes, uma arca, que aberta mostrou conter, além de dois rolos de documentos, um incrível tesouro: adereços de ouro e brilhantes, correntes, anéis, brincos, pedras resplandecente, moedas de ouro e prata e um grande crucifixo de ouro cravejado de brilhantes.

Dona Laura então lhe disse: “Aqui está meu tesouro. Estou sofrendo e sofrerei até que alguém o tire deste lugar”. Florindo então… acordou.

Logo ao amanhecer, ele dirigiu-se para os lados da Vila Rezende e logo encontrou o carreador do seu sonho. Achou o jequitibá.

Florindo começa a agir

Florindo decidiu agir honestamente. Escreveu uma carta à Baroneza relatando seu sonho e pedindo licença para proceder às escavações ao pé de jequitibá. Não obteve resposta. Escreveu outra e mais outras, sempre com o mesmo resultado. Depois da quarta carta, recebeu uma intimação para comparecer à Delegacia de Polícia. Lá estavam suas cartas.

A Baroneza, naturalmente, o havia tomado por um louco ou um visionário. Louco ele não era, nem visionário, mas descobrira que era vidente. Via dona Laura quase diariamente. Só que quando em vigília, ela não lhe falava, apenas o fazendo em seus sonhos.

Na Delegacia, Florindo confirmou tudo que dissera nas cartas. Ficou, então, combinada uma diligência ao jequitibá do tesouro, com a presença do administrador a chácara, Nhô.

Custódio, um rapazinho chamado Mário, dois soldados da polícia e alguns camaradas para desencovar a sonhada arca.

Mal se cavara pouco mais de palmo de profundidade, entre as duas enormes raízes, o enxadão bateu em alguma coisa dura. O nervosismo foi geral. Com as mãos trêmulas os operários foram retirando a terra, cautelosamente. Viu-se então aparecerem numerosas pedras de diabase, dispostas em fileiras paralelas, de modo a formarem uma área retangular, cuidadosamente pavimentada. A surpresa era total. Aquilo só podia ter sido feito por mão humana, como a significar um marco intencional em meio à mata virgem.

As pedras foram removidas e a escavação prosseguiu. Poucos centímetros abaixo, nova surpresa. Um retângulo negro de uns doze palmos de comprimento por uns três de largura. Seria a famigerada caixa do tesouro? Não, não era. Tratava-se apenas de uma espessa camada de carvão vegetal pilado e endurecido pelo tempo. Quando o operário começou a retirar o carvão, Nhô Custódio, visivelmente surpreso e amedrontado, gaguejou – “Pare, não cavoque mais. Isto tudo esta muito estranho. Não posso arcar com a responsabilidade do que aparecer neste buraco. Vamos suspender os trabalhos até eu ter falado com a Baroneza” . Florindo não concordou, argumentando que uma vez que a polícia estava presente, nenhuma responsabilidade caberia ao administrador, mas em vão. O velho não cedeu.

Retiraram-se todos, convictos de que, logo abaixo daquela camada de carvão se encontrava a arca repleta de jóias e moedas de ouro e prata. Florindo ficou desesperado. Perdera sua grande oportunidade.
Que fazer agora? Esperar a resposta da Baronesa para prosseguir escavando? Mas isso seria impossível. Todo mundo já devia estar sabendo da história…

*CONTINUA

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